OS EUA, 2011-13, E A ALEMANHA, 1930-1933, por DAVID KAISER

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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 Primeira Parte

Já por duas vezes nos últimos três anos, em 15 de Janeiro de 2010 e 16 de Julho de 2011, analisei  a analogia entre o que aconteceu com a República de Weimar, de 1930  até a ascensão de Hitler ao poder, em 1933, e o que aconteceu  com os Estados Unidos durante a Administração Obama. Em ambos os casos, deixei claro que eu não estava a acusar o Tea Party de totalitarismo ou de fascismo. Em muitos aspectos, eles podem não ser já  muito diferentes dos nazis: Hitler queria ( e criou) um Estado forte que poderia mobilizar todo o país, enquanto o Tea Party quer um governo que volte a ter o peso e o estatuto de que  gozava durante a Idade de Ouro do final do século XIX. Eu também disse, no entanto, que as metas de curto prazo dos nazis, antes deles terem tomado o poder, eram as mesmas que o Tea Party anda a defender: tornar a vida impossível para o governo, bloqueando o seu  funcionamento. Essa previsão já foi confirmada pelo paralisação forçada do governo  americano actual mas estou inclinado a acreditar que isso vai marcar a maré alta da influência do Tea Party e o início de um retorno a um mínimo de sanidade na política americana. Vejamos porque achamos que será assim. Aqui está  pois o porquê  desta posição  .

Por um lado, o Tea Party continua tão comprometido com a sua versão da América e a sua visão do mundo como os nazis estavam comprometidos com as deles . Eles, como os nazis, dividem  a comunidade nacional em gente com valor e gentes sem valor . Para o Tea Party as gentes com valor  são em sua maioria brancos, de bom aspecto e que vivem bem, sendo igualmente  e possuidores do que eles vêem como uma boa ética de trabalho, como demonstrado pelo seu sucesso económico de longo prazo.

(Na vida real, a correlação entre a ética de trabalho e o sucesso económico está longe de ser tão forte como eles pensam.) Para os nazis, as gentes de valor   eram supostamente arianos de sangue puro que colocam os interesses da nação alemã pela primeira vez acima de tudo. As gentes sem valor, para o Tea Party, incluiem os liberais, o presidente Obama, pessoas como  Clinton, os imigrantes e os “47%” que supostamente vivem no desemprego e são subsidiados pelo governo. Para os nazis, nas gentes sem valor estavam  incluídos os marxistas e, acima de todos,  os judeus. Quando se olha para outros aspectos dos dois movimentos, no entanto, as semelhanças desaparecem.

O calcanhar de Aquiles do Tea Party, como toda a gente sabe, é a sua base demográfica: os brancos das gerações silenciosas e as gerações do boom, com estas últimas a reduzirem-se, agora, e a um ritmo cada vez maior . Porque essas pessoas votam em maior número do que os americanos mais jovens, e por causa de gerrymandering, o Tea Party tem controlado a Câmara dos Deputados durante vários anos e provavelmente irá controlá-la ainda  por mais alguns, no futuro. Além disso, porque são muito poucas as pessoas que votam nas primárias, o Tea Party apresenta uma ameaça mortal para quase qualquer congressista republicano ou senador que os desafie – esta é a verdadeira  razão que nos leva a estarmos perante  uma paralisação praticamente total do governo. Voltaremos a este ponto , mais especificamente depois. Para ter certeza, nem todos os titulares de cargos do Tea Party são velhos – muitos deles vêm de Geração X, agora com 32-52 anos de idade -, mas a sua geração votou nos democratas nas duas últimas eleições presidenciais. Os nazis , por outro lado, apelavam aos  jovens desempregados. Mais importante, eles fizeram um trabalho mais eficaz do que qualquer outro partido alemão contemporâneo ao apelar a toda a nação, independentemente da classe ou região ou religião (embora, como é claro, não independentemente da ideologia. ) A força de seu apelo variou de grupo para grupo , mas eles comportaram-se  mais como um partido nacional americano do que qualquer um dos seus rivais , e isso , sem dúvida, permitiu-lhes chegar a 40% dos votos nacionais . O Tea Party, obviamente , está a apelar a uma base muito mais estreita do que os democratas. É justo dizer-se , no entanto, que ambos os partidos Democrata e Republicano têm estado a perder a capacidade  de apelar para o país como um todo, e é por isso que se está a enfrentar o terrível caos a que assistimos.

O Tea Party também não têm  a paciência dos nazis. Hitler compreendeu que só o poder total e com sua presença à frente do governo lhe permitiria atingir os seus objectivos. Os congressistas do Tea Party estão tão convencidos da sua própria justiça e da maldade de todos aqueles que se lhe opõem pelo caminho, que pensavam que  a maioria na Câmara lhes poderia  permitir e imediatamente  terem o poder de desfazer o último século da história legislativa americana. Era inevitável que eles iriam insistir em utilizar as duas alavancas disponíveis que lhes estavam ao alcance , o orçamento federal e o tecto da dívida, para com elas tentarem tentar obter tudo o que queriam. Nenhuma geração na história americana até hoje se mostrou com a arrogância dos Boomers americanos, a partir de quem esta liderança dos Tea Party é claramente copiada. Porque as organizações do Tea Party e seus colaboradores ameaçam qualquer republicano que se lhes faça frente, apenas um pequeno número de republicanos, liderados por John McCain, estão dispostos a levantar-se e a enfrentá-los mesmo nos seus piores excessos. John Boehner como presidente da Assembleia faz uma figura de pateta.

(continua)

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