A TERRA IMORTAL*, por ANDRÉ BRUN

(1881 – 1926)
(1881 – 1926)

Aos alferes Michaud e Mercwell, do Exército

Francês, camaradas queridos.

II

A terra é grande amiga do soldado. Nas horas em que cismamos no nosso isolamento, no nosso possível destino, é da terra que pisamos que nos vem a confiança. É ela que nos diz nas suas mil vozes mudas que a Violência é inútil, que amanhã será um grande dia, que os cataclismos passam e a Vida se perpetua. É ela que alimenta o nosso heroísmo feito mais de passividade do que de acção. É a grande companheira, a que entende a guerra melhor que todos os corações que nos amam, porque também a faz, porque a vê com os mesmos olhos com que nós a vemos.

A sua existência é paralela à nossa. Quando folgamos e o inimigo nos deixa repousar, este pedaço de chão é para nós banco de descanso, preguiceira de sonho, mesa de jantar e secretária de escrita. Logo, quando rebentar o bombardeamento, será través, pára-costas, posto de observação e trincheira de combate. Tem ares trágicos agora, daqui a pouco terá aspectos rústicos e quase idílicos. Hoje é campo de batalha, amanhã será recanto de merenda. Nos momentos de horror encolhe as suas flores, como nós crispamos os nossos sorrisos; nas horas de sossego elas reaparecem, balouçam-se ao vento, tal como na nossa face se espelha a nossa inconsciente resignação ou a nossa egoísta felicidade de viver ainda.

Vendo que estamos para aqui isolados, procura distrair-nos. Chama os seus pássaros para que cantem na folhagem, salpica de insectos as suas águas paradas, agita a rama das suas árvores, cobre as ruínas das apoteoses teatrais dos seus pores-de-sol. De noite divide o luar em inverosímeis efeitos, acumula as suas mais estranhas fantasmagorias e, quando nos podíamos supor sozinhos, a Terra diz-nos: «Estou aqui, tal como era há cinquenta anos, tal como serei daqui a três séculos.» Só ela nos afirma que este inferno não é definitivo, que um dia se voltará a tudo quanto vimos e quanto conhecemos. Tem para nós aquele amistoso conforto que nos fornece a experiência. A terra é um amigo muito velho. Só o que ela tem visto! E, quando a nossa pequenez se assombra, ela diz-nos:  ̶  «Deixem lá! Estou farta de assistir a estas cousas e cá estou ainda.» Que leva a guerra afinal? O trabalho transitório do homem. A Terra fica e nela amanhã se poderão tornar a cavar os alicerces de novas casas, tão facilmente como nela hoje se cavam as sepulturas novas. Sobre as campas que são rasas ela estenderá as flores rasteiras; pelas paredes que são altas ela fará subir as trepadeiras ágeis.

*IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.

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