CELEBRANDO VINICIUS DE MORAES – 1 – por Álvaro José Ferreira

Imagem1Nota prévia:

Para ouvir os poemas de Vinicius de Moraes (os recitados e os cantados), há que aceder à página 

http://nossaradio.blogspot.pt/2013/10/celebrando-vinicius-de-moraes_29.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

«Homem de bem com a vida, a favor da vida. A quem a vida nada negou e que também não se nega à vida. Criador de um lirismo em prosa e verso, falado e cantado, e sempre de exaltação à vida. A canção em Vinicius nasce de um encontro, não vem de um conflito. Encontro consigo mesmo, com o outro, com a sua cidade. Com o menino livre e feliz que foi, com o tempo da infância, fonte inesgotável quando tudo era indizivelmente bom. Menino de beira-mar, os carinhos de vento no rosto e as frescas mãos de maré nos seus dedos de água.
Encontro com o próximo, com aquele que se dá à vida. O que não se defende, o que não se fecha, o que não se recusa participar do espectáculo fascinante da grande e da pequena ventura de viver.
Encontro com os amigos, parceiros da vida em comum. E encontro com os parceiros, amigos da arte em comum. Encontro com a mulher amada, a amiga infinitamente amiga. E encontro com a mulher do povo, entre moringas e cenouras, emoldurada de vassouras. Com o operário em construção, dono de uma nova dimensão, uma dimensão da poesia. Encontro da sensibilidade pessoal com o sentimento popular, da inspiração e da técnica pessoais com o ritmo e inspiração gerais. Encontro da mulher com o homem, do amor. Das palavras com a música, da poesia com a canção. Poesia de aliança com a vida e canção de aliança com a multidão. Voz pessoal mas compreendendo muitas vozes. Encontro de uma voz com todas as vozes. Poeta do encontro, cantor da vida, Vinicius tomou partido do sentimento contra o ressentimento. Por isso, ele não semeia pedras como aquele que não ama, semeia canções, poesia. Que lhe foi dado perder-se de amor por tudo o que é digno e que vale a pena. 
Vinicius canta o povo. O povo canta Vinicius.
A bênção, Vinicius de Moraes.» (Otto Lara Resende, “Vinicius, Poeta do Encontro”, 1966)

Foi a 19 de Outubro de 1913, fez há dias cem anos, que nasceu Vinicius de Moraes (http://www.viniciusdemoraes.com.br/), distinto poeta e um dos maiores vultos da música popular brasileira da segunda metade do séc. XX e de todos os tempos.
E o que fez a direcção de programas da Antena 1 para comemorar a efeméride? Encomendou a Iolanda Ferreira uma série de cinco pequenos apontamentos sobre as mulheres de Vinicius e quatro programas-documentário, com cerca de meia hora casa um, tratando das suas passagens por Portugal (com testemunhos de José Nuno Martins, Pilar Mourão-Ferreira, Nicolau Breyner e outros) que foram transmitidos, respectivamente, na semana precedente e subsequente ao dia do centenário (http://www.rtp.pt/play/p1331/as-mulheres-de-vinicius). É de saudar a iniciativa mas fica a saber a pouco, atendendo à importância do poeta, recitador e cantor. Impunha-se uma acção mais ampla e consistente, com o envolvimento da ‘playlist’ na celebração do autor d’ “O Dia da Criação”, de modo a proporcionar a audição, na íntegra, de boa parte do seu cancioneiro (pelo próprio e por outros – que são muitos) bem como dos poemas recitados. O legado de Vinicius de Moraes está recheado de pérolas que são não apenas património do Brasil mas da Lusofonia. Nesta ordem de ideias, a rádio pública de Portugal peca flagrantemente por omissão ao não divulgá-las ao público português.
O blogue “A Nossa Rádio” faz o serviço público de apresentar um bom punhado dessas pérolas. Felizardos os que aqui acederem pois têm a oportunidade de as revisitar ou descobrir.

O DIA DA CRIAÇÃO

Poema: Vinicius de Moraes (in “Poemas, Sonetos e Baladas”, São Paulo: Edições Gavetas, 1946; “Antologia Poética”, Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 220-224)
Recitado pelo Autor* (in LP “Vinicius e Caymmi no Zum Zum com o Quarteto em Cy e o Conjunto Óscar Castro Neves”, Elenco, 1967, reed. Universal, 2001, 2004)

                    Macho e fêmea os criou. 
                            BÍBLIA: Génesis, I, 27 

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo 
A vida vem em ondas, como o mar 
Os bondes andam em cima dos trilhos 
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar. 

Hoje é sábado, amanhã é domingo 
Não há nada como o tempo para passar 
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo 
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal. 

Hoje é sábado, amanhã é domingo 
Amanhã não gosta de ver ninguém bem 
Hoje é que é o dia do presente 
O dia é sábado. 

Impossível fugir a essa dura realidade 
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios 
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas 
Todos os maridos estão funcionando regularmente 
Todas as mulheres estão atentas 
Porque hoje é sábado. 

II

Neste momento há um casamento 
Porque hoje é sábado 
Há um divórcio e um violamento 
Porque hoje é sábado 
Há um homem rico que se mata 
Porque hoje é sábado 
Há um incesto e uma regata 
Porque hoje é sábado 
Há um espectáculo de gala 
Porque hoje é sábado 
Há uma mulher que apanha e cala 
Porque hoje é sábado 
Há um renovar-se de esperanças 
Porque hoje é sábado 
Há uma profunda discordância 
Porque hoje é sábado 
Há um sedutor que tomba morto 
Porque hoje é sábado 
Há um grande espírito-de-porco 
Porque hoje é sábado 
Há uma mulher que vira homem 
Porque hoje é sábado 
Há criancinhas que não comem 
Porque hoje é sábado 
Há um piquenique de políticos 
Porque hoje é sábado 
Há um grande acréscimo de sífilis 
Porque hoje é sábado 
Há um ariano e uma mulata 
Porque hoje é sábado 
Há uma tensão inusitada 
Porque hoje é sábado 
Há adolescências seminuas 
Porque hoje é sábado 
Há um vampiro pelas ruas 
Porque hoje é sábado 
Há um grande aumento no consumo 
Porque hoje é sábado 
Há um noivo louco de ciúmes 
Porque hoje é sábado 
Há um garden-party na cadeia 
Porque hoje é sábado 
Há uma impassível lua cheia 
Porque hoje é sábado 
Há damas de todas as classes 
Porque hoje é sábado 
Umas difíceis, outras fáceis 
Porque hoje é sábado 
Há um beber e um dar sem conta 
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta 
Porque hoje é sábado 
Há um padre passeando à paisana 
Porque hoje é sábado 
Há um frenesi de dar banana 
Porque hoje é sábado 
Há a sensação angustiante 
Porque hoje é sábado 
De uma mulher dentro de um homem 
Porque hoje é sábado 
Há a comemoração fantástica 
Porque hoje é sábado 
Da primeira cirurgia plástica 
Porque hoje é sábado 
E dando os trâmites por findos 
Porque hoje é sábado 
Há a perspectiva do domingo 
Porque hoje é sábado. 

* Arranjo – Óscar Castro Neves
Produção – Aloysio de Oliveira
Assistente de produção – José Delphino Filho
Gravado no Estúdio Rio Som, Rio de Janeiro, em 1965
Engenheiro de som – Norman Sternberg
Técnico de som – Umberto Contardi

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