“SE RENUNCIARMOS AOS SONHOS DEIXAMOS DE VIVER” por clara castilho

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Gostaria de poder gozar agora de um período de férias e de ir até Madrid e Málaga. Certamente me faria bem poder relaxar, esquecer momentaneamente os problemas actuais da sociedade e mergulhar os olhos nas exposições que por lá andam.

Na primeira cidade , no Museo Thyssen, está patente a exposição “El Surrealismo y el Sueño” que poderá ser vista até 12 de Janeiro de 2014. Reúne 163 obras de Dalí, Magritte, Miró, Ernst y Man Ray, Breton, entre outros. Nela se analisa pela primeira vez a transcrição plástica do sonho.

O seu comissário , o filósofo e crítico de arte  José Jiménez afirma: “Viver é sonhar. A grande mensagem dos surrealistas à volta do sonho é esta: se renunciarmos aos sonhos, deixamos de viver. Gostaria que este grande impacto artístico que sentimos ao ver todas estas obras, pudesse ser, ao mesmo tempo, um impulso na nossa vida para que continuemos sonhando, continuar a defender ideais, por uma liberdade na nossa forma  persistir, ser coerente e ter amigos.

As 163 obras estão complementadas por sete vídeo-instalações com fragmentos de filmes, pois trata-se do “primeiro movimento multimédia que utiliza todos os suportes, desde a pintura ao cinema”. Um deles é do filme Un perro andaluz, de Luis Buñuel e Dalí, La Edad de Oro, também de Buñuel, três curtametragens de Joseph Cornell, Emak Bakia, a película de Man Ray (Déjame en paz) o Recuerda, de Alfred Hitchcock.

Já em Málaga, no Museu Picasso, pode ser apreciada a obra da sueca Hilma af Klint (1862-1944), que se inscreve dentro do misticismo nórdico e centroeuropeu, o que a torna na pioneira do abstracionismo (ao lado de Kandinsky e Mondrian).  Com 200 obras, que sintetizam a  sua trajectória e  reflectem a sua evolução do simbolismo naturalista até à arte abstracta.

O seu trabalho foi cuidadosamente guardado durante muitos anos, aguardando o momento de ser exposto. A artista acreditava que o mundo não estivesse preparado para o ver, e deixou instruções para que seu trabalho abstracto só viesse a público 20 anos após sua morte.

Seu universo visual tenta apresentar diversas nuances da existência humana, onde o micro e o macrocosmo se reflectem, através de dualidades, estudos de cores e com forte simbolismo. A dimensão espiritual das obras era fundamental. Ela acreditava que havia um mundo espiritual, além do que se pode ver. Assim, sua arte era uma maneira de representar esse mundo. Grande inspiração para o seu trabalho veio das sessões espíritas e de técnicas ocultas.

Conta a pintora: “As imagens são pintadas directamente por mim, sem nenhum desenho preparatório e com grande energia. Eu não sei o que as figuras devem representar, mesmo assim eu trabalho com certeza e rapidez, sem mudar nenhuma pincelada”. Ao longo de seu trabalho, ela desenvolveu símbolos próprios, como o cisne, algumas plantas, formas geométricas e certas palavras.

Podemos considerar que a sua condição de mulher e artista, na época em que viveu a tornou incompreendida. Seu sobrinho neto, Johan af Klint, disse: “ Para a minha família ela era como uma ovelha negra”. O director artístico do Museu, José Lebrero, realça: “Na sua época o homens podiam fazer tudo: criar, produzir, experimentar… enquanto que às mulheres só estava reservado o papel de reprodutoras. E esta mulher conseguiu produzir, tentar explicar o mundo de uma forma que era demasiado revolucionária para o seu tempo”.

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