EDITORIAL – UMA CONDECORAÇÃO PARA EDWARD SNOWDEN

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Parece que afinal o homem tem mesmo muita razão. Os espiões americanos têm andado a escutar tudo e todos sem controlo. E agora temos a segunda parte do espectáculo, com os chefes de serviço a dar umas desculpas, e a tentar  passar as culpas aos serviços de espionagem europeus. O presidente Obama diz que não sabia de nada. Se for verdade, quem sabia? Ninguém? Quem mandou escutar o telefone de Angela Merkel? Toda esta confusão seria apenas ridícula, se não fosse tão grave. Os EUA são o país mais poderoso do mundo, e estão a dar um espectáculo confrangedor. Será que as agências de espionagem norte-americanas trabalham por conta própria? Terão sido privatizadas?

Razão teve também Dilma Rousseff ao tomar uma posição dura em relação aos EUA. Já se sabia que os norte-americanos se acham os donos do mundo, mas que o descaramento chegava tão longe ninguém imaginava. Edward Snowden teve o material na mão e percebeu que a questão era muito mais grave do que se supunha.

Claro que não há inocentes nestes jogos. Se Edward Snowden é boa pessoa ou não, é difícil de avaliar. O facto é que teve razão em fazer as revelações. Entretanto, se Angela Merkel ou os responsáveis das agências de espionagem alemãs dispusessem do avanço tecnológico dos norte-americanos, fariam o mesmo ou pior, provavelmente. Basta ver a maneira como a Alemanha trata os outros países europeus. O caso é que há uma enorme falta de escrúpulos na política internacional. E o desequilíbrio entre o poder militar dos EUA e o resto do mundo agrava terrivelmente a situação. A política externa norte-americana assenta fundamentalmente na manutenção desse desequilíbrio. Por isso, insistem tanto em espionar tudo e todos. Os excessos de zelo, neste clima, são inevitáveis, e podem ter consequências incalculáveis.

A resposta europeia a este caso, até á data, foi muito tíbia. E, tendo em conta os antecedentes, não se prevê muito mais. Quais são as possibilidades reais de ir longe numa regulação neste capítulo? Um entendimento entre a Europa e as nações do resto do mundo, para impor limitações aos Estados Unidos? Parece muito difícil, tendo em conta o passado recente nas relações internacionais.

A questão da condecoração ou não para Edward Snowden é sem dúvida importante, até no campo dos direitos humanos. Mas tem pouco peso, comparada com a da necessidade um entendimento internacional para pôr cobro à espionagem desenfreada que ficou patente com as revelações que ele fez.

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