Tinham atravessado a rua e estavam agora num café, um pequeno estabelecimento enquistado entre as novas instalações destinadas à cultura e que ficavam em frente da Capitania. O inspector saíra resmungando e sem quse se despedir. O tenente Fragoso enquanto mexia o açúcar no seu café ia dizendo:
– O senhor tocou numa corda sensível do inspector…
– Ah sim?
– Pois. – Em jovem, na Faculdade de Direito, esteve ligado ao MRPP…
-Não me diga!
– Pois é verdade. Esteve preso em Pinheiro da Cruz por ordem do COPCON. – e Fragoso concluiu – Não é mau homem…
– O Padre Américo disse que os não há.
Riram. E Fragoso descreveu a busca feita em casa do sargento Costa. Quando a polícia entrara em sua casa, deparara com uma arrumação impecável que faria inveja a muitas donas de casa. Pouco mobiliário, guarda-roupa pouco fornecido, louças, talheres e utensílios de cozinha, alguns electrodomésticos essenciais – um fogão, um esquentador, um microondas, um aspirador, um rádio com um velho gira-discos, um leitor de CDs, um televisor… pouco mais. Muitos livros, algumas centenas, talvez mais de um milhar. Literatura política, na sua maioria – coisas de peso – as obras completas de Gramsci, na edição original da Einaudi, Castoriadis, Merleau-Ponty, Jacquard… Marx e Engels, coisas mais clássicas como Jean-Jacques Rousseau…
Nas paredes, além de reproduções de quadros célebres, algumas armas tribais africanas e máscaras, ao que parece, de arte maconde. Um colar de missangas. Havia também um volumoso álbum com fotografias, na sua maior parte a preto e branco. Gente nas posições hieráticas com que há cinquenta anos as pessoas se faziam fotografar. E muitas fotos de África, algumas já a cores – Bafatá, Novembro de 1968, Bissau, mercado, 1970, Tete, Moçambique, 1971, Lourenço Marques, 1972… Nelas, o nosso homem quase quarenta anos mais novo, aparecia rodeado de camaradas da tropa ou de indígenas, vestindo camuflado e usando o quico ou a boina regulamentar. Numa delas aparecia com dois outros jovens europeus e com uma rapariga negra. Alegenda dizia…
– Tenho aqui uma cópia – disse Fragoso abrindo o fecho da sua pasta. De um envelope formato A4 retirou uma ampliação feita em impressora digital: Quatro jovens – três rapazes e a rapariga africana –
A legenda dizia – «Também os três mosqueteiros eram quatro» e, no bordo inferior – Cidade de Maputo, 1975. Num dos rapazes, António reconheceu o Alfredo Nunes de três décadas atrás.