Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 125 – por Manuela Degerine

Chuva no molhado

Imagem1Capri, c’est fini, não volto cá. Os outros peregrinos apanham o Metro, caminham depois até S. Pedro de Rates; farei o mesmo. Se me arrisquei a percorrer pela quarta vez a etapa, tão perigosa, se me sujeitei a este albergue, tão desconfortável, foi, como já referi, para poder caminhar hoje entre Vilarinho e Pedra Furada…

Chego à ponte do rio Ave quando amanhece, demoro-me a olhar o rio, o moinho, as margens… Um silêncio de água. Uma paz de galos a cantar. Atravesso a aldeia recolhida mas não adormecida pois, embora seja domingo, sete horas da manhã, há bastantes janelas iluminadas. Volto à N306 porém, boa surpresa, apenas a atravesso: a sinalização evita-nos a beira da estrada, atravessamos os lugares através de ruas e caminhos. Infelizmente… Ainda eu ia na ponte: começou a chover! O IPMA previa “chuva fraca”… Chove de facto miúda e teimosamente durante todo o dia.

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Nem a chuva me desmancha o prazer de caminhar nesta região. Solares com brasões e esculturas, grandes blocos de pedra, granito e mais granito, portões de madeira com ferragens, portões de ferro forjado, portões de ferro pintado, portões de ferro rendilhado… O longo muro sobre o qual corre esta glicínia: um delírio azul. A elegante estrutura que há-de suster a vinha por cima da rua: uma escultura de ferro e arame. Musgo, quantas variedades de musgo, os muros são musgo, os espaços entre a calçada são musgo… E a chuva intensifica todos os verdes.

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Há todavia caminhos transformados em levada, água corrente com quinze centímetros de profundidade… E muita lama. Tudo isto reduz o ritmo da marcha. Faço desvios para não escorregar nas pedras glaucas, para não inundar o interior das botas, para não me enterrar até ao joelho… Chego a Barcelinhos após dez horas de mochila: exausta. Todos os espaços onde poderia parar se encontravam molhados, não me apetecia poisar a bagagem à chuva, fiz portanto uma única pausa… Trazia numa caixa o resto do arroz com caju e queijo, uma boa salada que comi junto à igreja em Pedra Furada – mas à chuva. Um sítio que, com tempo normal, é muito agradável.

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Quando passei em frente do albergue de S. Pedro de Rates, vi a porta aberta, entrei para o conhecer, tinha o impermeável por cima da mochila e da bolsa, nem larguei a carga; fiquei durante três quartos de hora. Ontem dormiram aqui mais de trinta peregrinos – não admira que ninguém partilhasse comigo a sujidade de Vilarinho! Os alberguistas fazem parte da associação “Ventos Hospitaleiros” do Corpo de Voluntários da Ordem de Malta cujos membros dão apoio aos peregrinos; e estes vieram do Porto, Ovar e Aveiro para acolher os caminhantes. (Na próxima passagem no Caminho Português dormirei aqui, quando mais não seja, para melhor apreender a ação destes voluntários.)

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