O CAVALINHO MÁGICO – conto de António Augusto Sales

Um Café na Internet

Imagem1M. Roussel tinha um pequeno estabelecimento de antiquário na rua Berger, no bairro Les Halles, em Paris. O reduzido espaço operacional prolongava-se, no entanto, lá para o fundo do prédio onde certamente residia o armazém desse material antigo que constitui o recheio destas casas. Todas as manhãs, saído do hotel situado ali perto, seguia, a pé, pela rua Berger e parava na montra da loja de M. Roussel a “namorar” um cavalinho de madeira de comprimento inferior a dez centímetros e uma altura de oito entre a base e o cimo da cabeça. Mo meio de diversos objetos cuja patine do tempo contrastava com a sua garridice colorida, destacava-se como se ali estivesse perdido.

O meu hábito de parar todos os dias frente à montra acabou por tornar evidente a M. Roussel o meu interesse e a entabular conversa sobre o cavalinho, a arte como manifestação do prazer do espírito, e mesmo a minha pessoa.

Através desses curtos diálogos acabei por saber que M. Roussel fugira com os pais para Lisboa durante a ocupação alemã, e a Paris regressara quatro anos depois do armistício. Embora miúdo nunca mais esquecera a segurança desfrutada em Portugal nem a simpatia como haviam sido tratados apesar de judeus. No regresso o pai, especialista em peças de arte e antiguidades, instalou-se em Les Halles (não propriamente naquele local) e ele continuou-lhe as pisadas conquistando o prestigio que lhe garantia uma clientela selecionda.

Na minha circunstancial condição de passante eu era apenas uma curiosidade cuja nacionalidade facilitava a relação com aquele sujeito baixo, magro, calvo nas entradas do crânio e uma barba grisalha e bem aparada que lhe concedia um ar respeitável. M. Roussel poderia ser identificado como uma antiguidade mas o cavalinho não, embora raridade de um colorido rendilhado e de espantosa perfeição artesanal. Pintura rigorosa no traço, feérica na imaginação, rica nos pormenores de autor o que permitia ao lojista afirmar a exclusividade da peça. Não duvidei sequer de M. Roussel cujo folclore de adjetivos justificava o elevado preço e um imperativo desconto que eu procurava obter, sem resultado, não fosse ele judeu. A peça era valiosa, única, encantadora, mágica – exclamava classificando-a. Viera diretamente de Damasco para o seu negócio pela mão de pessoa amiga atenta a todas as boas oportunidades. O cavalinho fora uma delas.

A indiscutível delicadeza do tamanho e elegância de linhas conferiam-lhe o encanto de um talismã completamente desajustado naquele local. Talhado em madeira protegida por uma finíssima película de verniz, apresentava-se ajaezado por um rico conjunto de adornos, recolhendo a ilusão das terras do oriente por onde andara a compartilhar batalhas e aventuras, antes de enterrar tais memórias numa desconhecida rua de Paris entre santos, jarrões, armas, cadeiras, cómodas, livros e outros tantos artigos carregados de amor e sofrimento.

A riqueza dos arreios do belo animal impressionava-me pelo desenho e a cor que os vestia: sela vermelha sobre rico xarel de fundo escuro coberto por delicada pintura de folhas verdes onde abriam flores de pétalas tom rosa e corolas amarelas. Mas o requinte representava-se, sobretudo, ao nível dos arreios da cabeça e do peitoral decorados por motivos vegetais entrelaçados. Assim engalanado o pequeno cavalinho ganhava o porte e a imponência de quem fora preferido de um qualquer sultão do império otomano. Todos esses elementos concediam-lhe um caráter mágico refletido no mistério da beleza e da sedução saídas de um conto das mil e uma noites.

Solitário, olhava-me da montra com o abatimento de quem perdera a glória de outros tempos mas não a dignidade. Eu conseguia entender a dor da sua sujeição a destacar-se na montra num apelo de liberdade. Tomou-me a luz da ternura perante o olhar esperançoso de quem se deixava afagar pelas minhas mãos de cetim. Relinchou feliz na perspetiva de sair da velha loja para, orgulhoso, voltar a recordar honras e grandezas da sua juventude.

M. Roussel percebeu, sem dificuldade, a minha paixão pela pequena obra de arte. Comoveu-se e em nome da vetusta hospitalidade portuguesa facilitou a compra relembrando aquela Lisboa que lhe ficara no coração.

Já passaram muitos anos (mesmo muitos) e o cavalinho mágico ainda hoje se encontra sobre a minha mesa de trabalho. Cavaleiros do tempo fazemos companhia um ao outro, ele com a alegria das suas roupagens esotéricas e eu com o encantamento dos meus olhos. Dei-lhe um sentido nobre ao repartir comigo um espaço de intimidade onde ambos dividimos a vida. Já não se encontra confinado à montra sebosa da rua Berger mas a uma ampla janela donde contempla um horizonte quase infinito de prédios, árvores e montes. Quando o observo na quietude da minha alma, imagino-o a correr pelos desertos de África, solto como o vento, ou pelas frígidas montanhas da Anatólia. Percebendo a minha curiosidade conta-me os seus amores em Samarkanda por uma égua toda branca, da princesa Belinda; da vez que salvou o seu senhor fugindo ambos de Constantinopla; suportando os calores doentios espalhados no Cairo até chegar aqui e descansar junto de mim, nas neblinas românticas e frescas das terras de Sintra, único sítio do mundo onde o meu cavalinho mágico poderia repousar.

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