O último GDH levou-me a revisitar o livro de Ignacio Ramonet, Géopolitique du chaos (Éditions Galilée, Paris, 1997). E suscitou-me o reencontro com algumas passagens mais sugestivas que a sua leitura me obrigara a assinalar. Sinto-me hoje obrigado a recuperá-las porque, escritas numa época em que predominava a euforia da Globalização, o mito da sociedade de consumo, a utopia da era da abundância, a ilusão da economia de mercado, aquelas passagens de Ramonet evidenciam a lucidez do autor que não embarcava nos louvores aos novos deuses do neoliberalismo.
Recordo que, por essa altura, era António Vitorino ministro da Defesa Nacional e foi ao Instituto de Defesa Nacional (IDN) proferir uma conferência sobre a Globalização. Na plateia fiquei siderado pelo discurso de um socialista, apologético do sistema global liderado pela hiperpotência em vias de se tornar senhora do Império Mundial, que pouco duraria porque com a administração W. Bush viria a tropeçar nas contradições que ela própria gerou. António Vitorino apontava-nos no horizonte amanhãs de riqueza planetária, de democracia generalizada, de paz universal. Finda a conferência ministerial, quando quis expressar as minhas dúvidas, o ministro já não estava. Ministro é assim, vende a sua mercadoria e, quando o cliente ousa regatear a qualidade ou a quantidade, já não está. Mesmo assim, quando da mesa me deram a palavra porque para tal me inscrevera, limitei-me a manifestar a minha frustração porque acabara de ouvir uma comprometida apologia da Globalização quando, o que eu esperava de um homem inteligente e culto como António Vitorino, era ouvir uma pedagogia da Globalização. Foi fácil aperceber-me que parte significativa da assistência partilhava esta crítica
Exatamente o que me atraiu no livro de Ignacio Ramonet foi ele não ter embarcado nesta euforia. Pelo contrário, já previa que os resultados seriam a colocação em causa do Estado providência e mesmo do Estado tout court, uma evolução política reacionária no estrito sentido do termo que arrasta o desmantelamento das conquistas democráticas e o abandono do contrato social europeu (pp. 56 e 57). Porque é essa a lógica deste regime globalitário, com a transferência de decisões capitais da esfera pública para a esfera privada (p. 61). E acrescentava mais, que a política se submete ao domínio da economia e à ditadura dos mercados, que hoje democracia rima com desmantelamento do setor estatal da economia, com privatizações, com enriquecimento de uma pequena casta de privilegiados (p. 65). O pensamento único, arrogante, sobranceiro, insolente, é o moderno dogmatismo, sempre menos Estado e uma constante arbitragem em favor dos lucros do capital em detrimento dos do trabalho (pp. 76 e 77).
Haverá melhor caraterização para o quadro europeu atual, nomeadamente em Portugal?
Pucos anos depois, em 28 de Março de 2000, Ignacio Ramonet vinha pessoalmente ao IDN participar com uma conferência exatamente sobre o tema do deu livro “A geopolítica do caos” na qual, ao vivo, teve oportunidade de debater o seu pensamento. Retive, entre outras notáveis ideias que transmitiu que, o que carateriza a época da Globalização, é a revolução financeira, com base nos fluxos financeiros através das autoestradas da comunicação. São estes os paradigmas da Globalização, o mercado (financeiro) e a comunicação (informática).
Num sistema global desta natureza, as crises também se propagam instantaneamente e à dimensão global. E nas sociedades mais frágeis, de economias mais dependentes, o impacto é muito maior. Nós, em Portugal, estamos a pagar um preço insuportável porque, na abordagem da Globalização, a euforia se sobrepôs à pedagogia. Era o que interessava aos mercados que agora nos cobram o preço de terem posto alguns a viver acima das possibilidades da maioria.
Um verdadeiro estudo de caso para um tema sobre o cinismo maquiavélico.
4 de Novembro de 2013
