“PEDRA DE PACIÊNCIA” DE ATIQ RAHIMI – OUTRO LIVRO QUE NOS FALA DA MULHER NO AFEGANISTÃO por Clara Castilho

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Voltemos ao Afeganistão. Atiq Rahimi deixa-nos um romance – Pedra-de-Paciência– onde de novo encontramos a mulher socialmente dominada pelo marido, pai ou filho, sua escrava, duplamente agredida num país em guerra. É um murro no estômago. Apesar de ser um romance, percebemos a realidade do descrito e pensamos como o mundo é desigual, como há tanto sofrimento contra o qual é muito difícil lutar.

Na mitologia persa, a “singué sabour” é uma pedra mágica que o crente deve pousar à sua frente para derramar sobre ela as suas infelicidades, os seus sofrimentos, as suas dores, as suas misérias…. Confia-lhe tudo o que não ousa revelar aos outros… E a pedra escuta, absorve como uma esponja todas as palavras, todos os segredos, até que um dia a pedra racha… Nesse dia o crente liberta-se de tudo.

Mas não é o que acontece na história. A personagem principal, sem nome, só “a mulher”, para além de reviver toda a sua vida de subjugada, em que o marido foi para a “guerra santa” tem que resistir aos soldados que entram por sua casa, sem saber de que lado são.

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O livro é uma edição da Teorema, de 2008. O seu autor, Atiq Rahimi, é apresentado como escritor, fotógrafo e cineasta e um destacado representante da cultura afegã na Europa. Francófilo, ex-aluno do liceu francês de Kabul, em 1984 fugiu, muito jovem, do seu país para França onde obteve asilo político. Apaixonado pelo cinema, fez estudos na área do audiovisual e doutorou-se em cinema na Sorbonne. É autor de vários filmes. Tem mais três livros traduzidos, um também na Teorema – Terra e Cinzas e As Mil Casas do Sonho e do Terror- e outro na Teodolito – Maildito seja Doatoiévski. Vemos que Carlos Veiga Ferreira que dirigiu a primeira editora e agora fundou a segunda, é um grande apreciador deste autor.

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Pedra-de-paciência é o seu primeiro livro escrito directamente em francês e conquistou o Prémio Goncourt 2008.

Aliás, esta sua experiência em cinema está presente em todo o livro. O que senti foi que estava a ler um guião de cinema, onde são descritos os locais, os movimentos dos personagens e os seus sentimentos. Acção que vai avançando num crescente dramático, com fim inevitável.

 

“O sol deita-se.

As armas acordam.

Mais uma vez, esta noite destrói-se.

Mais uma vez esta noite mata-se.

A manhã.

Chove.

Chove na cidade e nas suas ruínas.

Chove nos corpos e nas suas chagas.”

 

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