O tenente Guilherme Lopes foi colocado em Lourenço Marques – na «guerra do ar condicionado», como depreciativamente eram classificados os burocratas militares. Lopes perdera muito da sua “esperteza saloia” ou talvez a tenha canalizado para uma atitude reservada. Passava o dia a põr carimbos e impressos, apondo-lhe depois a chancela do oficial responsável. O seu papel em Xuvalu fora alvo de informações contraditórias – o capitão Gilberto Alves elogiara no relatório o seu comportamento e o inspector Cãncio, acusara o capitão e o tenente de terem prejudicado o êxito da “Operação Shelltox”, manifestando escrúpulos excessivos.
Perante uma comissão de inquérito, com grande serenidade perguntou se um oficial das Forças Armadas Portuguesas podia permitir que um padre fosse assassinado. E ninguém na comissão de inquérito que o Estado Maior nomeara, ignorava no que consistia o “excesso de escrúpulos”. Porém, o padre que fora poupado à morte pela intervenção dos oficiais, desdobrava-se em entrevistas, denunciando pelo mundo fora a ferocidade do massacre de Xuvalu. E, embora ninguém o confessasse, se o dominicano tivesse sido silenciado o problema não existiria. Gilberto Alves sabia muito bem que assim era, mas sabia também que uma coisa era o que se pensava e outra o que se podia dizer. Ao cabo de alguns meses num trabalho de secretaria, veio a promoção. Quando, com um pequeno grupo de amigos, festejava na Cervajaria Piri-piri os galões de capitão, um rapazito veio entregar-lhe um envelope. Deu-lhe umas moedas e o garoto saiu a correr. Tinha recebido várias mensagens de felicitações e, preparou-se para ler mais uma. Abriu o sobrescrito. O sorriso morreu com a leitura: