
I
Numa tarde de Dezembro em que o frio cortava como navalha de barba, de dentro de um automóvel do Q. G. saltaram duas pessoas; e uma delas, indicando-me a outra, disse:
– “O pintor Sousa Lopes!”
Era numa aldeia da retaguarda onde a minha malta descansava uns dias. Conhecia de nome o artista que me apresentavam, vira dele uma exposição em Lisboa, e uma grande simpatia me aproximou desde logo desse rapaz que não hesitara em deixar a vida tranquila do seu atelier em Paris para seguir a existência vagabunda e não isenta de perigos de pintor do C. E. P.
A pessoa é profundamente insinuante. Um corpo meão e atarracado, uma cara redonda e ao mesmo tempo fina, uns olhos inteligentes com a doçura dos olhos míopes, e, em tudo, na correcção do falar, no agitar correcto da fisionomia, na reduzida amplitude do gesto, no comedimento das atitudes, aquele toque que a França impõe aos que nela permanecem longo tempo.
Na conversação que entabulámos, a minha primeira impressão extremamente agradável afirmou-se definitivamente. Sousa Lopes saíra da sua existência estabelecida com esta ideia bem patriótica: a de fixar nos seus carvões, nas suas águas-fortes, os lances principais da vida dos nossos soldados em França. A parte financeira do seu contrato era uma miséria. Apenas o movia o seu interesse de artista português. Caíra, porém, num meio em que a realização dos seus desejos era difícil: o dos quartéis-generais, onde a sua missão e os seus planos não eram suficientemente compreendidos. Depois, mal ele vestira a sua farda de capitão equiparado, tinham esquecido que ele era um pintor e um aquafortista, e só viam nele um oficial de serviços extraordinários. Deveriam dar-lhe todas as facilidades, deixá-lo vagabundar e facultar-lhe para isso todos os meios. Sucedia, porém, que nada se fazia em seu socorro. Vivia meio esquecido e semiabandonado. Quando tanto inútil tinha um automóvel para passear a felpa dos sobretudos ingleses, Sousa Lopes tinha que esperar que um dia uma viatura menos carregada o pudesse transportar.
Quando o vi em Dezembro do ano passado não excedera ainda a linha das escolas, e o seu álbum de apontamentos apenas continha esboços sem maior interesse para ele nem para a sua obra.
Como o artista me pedia que lhe sugerisse alguns assuntos curiosos , disse-lhe no abraço de despedida:
– “Venha connosco para as trincheiras. Aí terá tudo.”
*IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.
