EDITORIAL – A manipulação mediática

Imagem2Um livro recentemente lançado por Luís Pereira de Sousa, ex-jornalista da televisão pública, embora sob a forma de ficção, anuncia-se como revelador de embustes e armadilhas veiculados por um meio cujo objectivo é, supõe-se, o de informar. Não lemos ainda o livro, mas é sintomático o facto de ter sido o autor a editar a obra. As grandes editoras concentram-se nas mãos de grupos económicos poderosos e são elas também extensões do polvo da intoxicação mediática. Pânico à Beira Mar, sabendo-se que «beira-mar» é uma alusão a Portugal, parece ser uma obra com interesse documental, para além do eventual valor literário que se exige a uma obra de ficção.

 

É por demais conhecida a lista elaborada por Noam Chomsky sobre as dez estratégias de manipulação mediática postas ao serviço do poder político-financeiro.  Ao longo destes dois anos de governação do actual executivo temos visto como todos os recursos, todas as tácticas dessa estratégia, foram usados em benefício de Passos Coelho. Um gabinete formado por gente incompetente tem tido ao seu serviço toda uma parafernália desinformativa, intoxicante e mistificadora, utilizando todos os truques que Chomsky listou. Na fase final do governo de José Sócrates, todo esse dispositivo foi assestado contra ele. Lá «em cima» (e não nos referimos a nenhuma divindade) devem ter decidido substituí-lo. Não esqueçamos, porém, a grande ajuda que o próprio Sócrates deu a quem o queria apear…

 Também na passada semana, uma politóloga e professora da Complutense, Angeles Diez, proferiu em Madrid uma palestra sobre «As corporações mediáticas e o poder», apresentando uma tese inovadora – os grandes grupos ligados à informação, não estão ao serviço do poder – eles são o poder. Usando Portugal como exemplo e analisando a composição societária das empresas mais fortes e tentaculares, vemos que a tese da professora não constitui mera teoria da conspiração.

 Recentemente, um jornalista de um semanário de grande tiragem e circulação, após ter entrevistado uma personalidade política, viu recusada a publicação da entrevista, pois não fizera as «perguntas mais convenientes». Convenientes, para quem? Tudo isto nos leva a pensar no dilema que os jornalistas honestos enfrentam – ou deixam de ser honestos ou deixam de ser jornalistas. E se quiserem ser escritores, ficcionistas, não devem seguir o exemplo de Luís Pereira de Sousa, fazendo revelações sobre os podres da profissão e das máquinas de comunicação social – devem seguir o caminho de José Rodrigues dos Santos e defender teses cientificamente tontas, mas ficcionalmente empolgantes.

Émile Zola versus Dan Brown. Viva Dan Brown!

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