Mas ainda tarda o começo de uma grande carreira militar. Durante a Revolução muitos generais de brigada são facilmente nomeados e destituídos. Ganhou o apreço de Robespierre. Mas quanto tempo se aguentará este no poder? Participa na campanha de Itália. O seu génio militar começa a dar nas vistas, mas chega o 9 de Termidor e o fim do Terror. Robespierre é deposto. Napoleão é detido por ordem do seu amigo Salicetti. Tempos de revolução, amizade frágil… Depois é libertado. Mas consideram-no suspeito. Em 1795, as autoridades de Paris afastam-no da frente italiana e destinam-no ao exército da Vendeia, infantaria. Recusa. “A artilharia é que é a minha arma”. Tempos difíceis. José envia-lhe algum dinheiro. Junot, seu ajudante de campo, reparte com ele os escassos recursos. Quer casar-se com a bela Pauline Bonaparte mas Napoleão convence-o a desistir: “Tu não tens nada, ela nada tem. Qual é o total? Nada.
“Setembro de 1795. A sua negativa indispôs os ministros. Uniforme puído, anda de repartição em repartição, de antecâmara em antecâmara. Prova de novo o gosto amargo do fracasso. Em Toulon esteve quase a ganhar as alturas, voltou a cair. Pensa alistar-se no exército otomano, o sultão paga bem. Porém, o destino não quer que ele venha a ser paxá. Dias mais tarde a Convenção vai necessitar de um general enérgico. O Termidor liquidara o Terror e pusera Barras no poder. Uma nova Constituição foi redigida. Mas, liquidado o terror vermelho é preciso que o terror branco não se implante. Apesar dos seus últimos actos, os novos dirigentes foram cúmplices na execução do rei. Só o exército pode salvar a situação. Barras quer um técnico a seu lado. Napoleão é o escolhido. A Convenção autoriza. “Bonaparte? Quem é este tipo?”, perguntam os soldados. Comentam o uniforme descuidado, o cabelo comprido e despenteado e, sobretudo, a sua grande actividade. “Parecia estar em todo o lado ao mesmo tempo”, dirá Thiébault nas suas Memórias, “a autoridade das suas decisões assombrou todos e levou-os da admiração à confiança.” A Convenção só tem 8000 homens para enfrentar 30 000 rebeldes. Mas é Bonaparte quem comanda. Em 13 do Vindimário (5 de Outubro), os insurrectos são metralhados sem descanso. Na escadaria da Igreja de Saint-Roch deixam cerca de 400 mortos. Massacre e os outros desistem. Bonaparte salva a Convenção. Irá ser conhecido como o “general Vindimário”, célebre pela rapidez das suas decisões. É colocado à frente do exército do interior. Finalmente a águia ganha as alturas.
É então que conhece Josefina de Beauharnais, uma crioula graciosa (“pior do que se fosse bonita”, dirá alguém), viúva de um general guilhotinado durante o Terror. Tem 32 anos, mais 6 do que Bonaparte. Casam em 9 de Março de 1796. Ambos falseiam as idades para reduzir a diferença. Prenda de casamento: Barras oferece ao jovem general o comando supremo do exército de Itália. É o que ambiciona há muito tempo. Chega a Nice. O exército francês, menos numeroso que o inimigo austríaco e piemontês, está faminto, mal municiado, descalço e esfarrapado. Os generais mais antigos mostram-se insolentes para aquele rapazito insignificante, baixo, mal uniformizado, de cabelo comprido, com acento corso. Mas Napoleão é quem manda, não haja dúvidas. Severo, mantém-os à distância. Afável com os soldados, devolve-lhes a esperança, arenga à moda antiga, própria de quem leu Plutarco e Tito Lívio: “Soldados, estais nus e mal alimentados. Eu levar-vos-ei às planícies mais férteis do mundo. Ricas províncias e grandes cidades cairão em vosso poder. Ali ireis encontrar honra, glória e riqueza.”Embora não tenha experiência na movimentação de grandes unidades, aprende rapidamente. Improvisa, sobretudo. “É preciso ser mais forte do que o inimigo num ponto e atacar nesse ponto”. As vitórias sucedem-se: Nice, Lodi, Milão, Arcole, Rivoli. Dias gloriosos! Napoleão dirá depois a um amigo: “Via girar o mundo aos meus pés, como se andasse pelos ares.” Luta como um tigre. Vitórias ensombradas pelos tormentos que Josefina lhe causa. É um marido ciumento, escreve à esposa cartas inflamadas: “Não sabes que sem ti, sem o teu coração, sem o teu amor, não existe para o teu marido nem felicidade, nem vida?…”… “Longe de ti as noites são longas, tristes e melancólicas. Junto de ti, desejo que seja sempre noite.” Josefina não percebeu ainda que está casada com o homem mais poderoso do seu tempo. Engana-o com um tal Charles, anónimo e medíocre, mas ao qual, segundo um contemporâneo, a história deve a fúria selvagem que caracterizou a campanha de Itália. Vinte e um meses depois de ter saído da capital, o soldado desconhecido transformou-se num herói nacional. E a família começa a ser colocada: José é comissário da República em Parma; Luciano é comissário de guerra; Luís é seu ajudante de campo em Itália. Letícia vive em Paris com as filhas. Os detractores dizem que Napoleão teve sorte, mas ele não acredita na sorte. Acredita na sua estrela, o que é diferente, pois significa saber aproveitar as circunstâncias, uma das características do génio.
O PRIMEIRO CÔNSUL
“Soldados, do alto destas pirâmides, quatro mil anos vos contemplam!”, diz Napoleão às suas tropas antes da batalha das Pirâmides. A campanha do Egipto é necessária para enfraquecer a Inglaterra. Dificuldades na travessia de um Mediterrâneo dominado pela armada inglesa, mas o desembarque é um êxito. Os mamelucos, milícia turco-egípcia, são vencidos. Porém, a esquadra francesa em que as tropas fizeram a travessia é destruída por Nelson na baía de Abukir. Ficar isolado no Egipto? Não se atemoriza: “Quanto tempo passaremos no Egipto? Alguns meses ou seis anos… Só temos vinte e nove; teremos então trinta e cinco. Se tudo correr bem, estes seis anos ser-me-ão suficientes para chegar à Índia.” Os Turcos avançam na Síria para o expulsar do Egipto? Pois bem, irá ao seu encontro, sublevará os cristãos do Líbano, avançará sobre Constantinopla e dali irá até Viena, conquistando a Europa pela rectaguarda; isto se não se decidir a conquistar a Índia. Este é o sonho, mas a realidade é diferente: vence os Turcos, mas é detido em São João de Acre. As muralhas são sólidas e Bonaparte não dispõe de artilharia suficiente. Furioso, manda queimar as colheitas e matar todos os prisioneiros que não pode transportar: “Um homem de Estado não tem o direito de ser sentimental”. Marido ciumento, a infidelidade de Josefina já foi tornada pública. Os Ingleses apoderaram-se de algumas cartas ridículas e publicaram-nas na imprensa. Numa delas, pede a José que lhe encontre um lugar no campo onde se possa isolar, pois está farto da natureza humana: “Preciso de solidão e de isolamento, a grandeza aborrece-me, os meus sentimentos estão secos, a minha glória fenece; aos vinte e nove anos esgotei tudo”.
A situação em França degrada-se de dia para dia. No Outono de 1799 deixa as tropas no Egipto e enfrenta as dificuldades da travessia de um Mediterrâneo dominado pelos Ingleses. Quando desembarca depara-se-lhe um país diferente do que deixara. A maioria da população hostiliza o Directório. Taine diz: “a jovem República sofre de degenerescência senil. Ninguém faz qualquer esforço para a derrubar, mas parece já não ter forças para se manter de pé.” O trio de sacerdotes (Sieyès, Fouché e Talleyrand) que constitui a trave mestra do Directório, pensa ser necessário um golpe de Estado. Para o êxito precisam de Bonaparte, de “alguém capaz de violar a lei, mas respeitando-a”. E o 18 de Brumário (9 de Novembro de 1799), demite os membros do Directório, substituindo-os por três cônsules: Bonaparte, Sieyès e Roger Ducos. Em breve irá assumir todo o protagonismo. Os outros dois passarão para segundo plano. Fevereiro de 1800, plebiscito. De três milhões de eleitores apenas mil e quinhentos votam “não”. Aberto o caminho para o poder ditatorial. Um homem eleito por um período de dez anos governa, nomeia e demite ministros, magistrados e funcionários. É como que uma “monarquia pessoal”. Para as massas, a constituição tem um nome: Bonaparte. Muitas das actuais instituições da França vêm deste período – o Instituto de França, a divisão administrativa, o Conselho de Estado, etc. Uma concordata assinada com a Santa Sé, põe fim ao diferendo entre a França e a Igreja. Napoleão pensa que “a religião tem uma grande utilidade para os governantes, pois ajuda-os a manobrar as pessoas”.
As vitórias militares e diplomáticas continuam. Aliança de várias potências europeias contra a França, segunda campanha na Itália. Em 1800, à frente de 60000 homens, Napoleão atravessa os Alpes e derrota os Austríacos em Marengo. Em Amiens, em 1802, assina a paz com os Ingleses. Cessam provisoriamente as hostilidades na Europa. Os novos êxitos valem-lhe o título de cônsul vitalício. “A minha política é a de governar os homens como a maioria o deseje. Esta é, segundo eu julgo, a maneira de reconhecer a soberania do povo.” Contudo, nem todos o amam. Em 24 de Dezembro de 1801, livrara-se por escassos segundos de morrer com a explosão de um carro carregado de pólvora na rue Saint-Nicaise. Quando o Senado lhe oferece a coroa imperial, os Franceses não se surpreendem. Para eles, o Império é a continuação natural do consulado. Voltamos à Notre-Dame. À sua frente, Josefina ajoelha e ele vai impor-lhe a coroa (casados civilmente há oito anos, só à chegada do papa para a cerimónia da coroação dizem ao pontífice não estar unidos pela Igreja. Por isso o casamento realizou-se ontem à noite, à pressa, no Louvre). Napoleão jura, sobre a Bíblia, manter a liberdade, a igualdade, a propriedade de todos os que adquiriram bens nacionais e a integridade territorial legada pela República. Desde há mil anos que o papa tem o privilégio de coroar os imperadores. Porém, no momento crucial, Bonaparte rompe a tradição: ele próprio toma a coroa do altar e a ergue nas suas mãos – ninguém, nem mesmo o papa, é suficientemente grande para o fazer imperador (o papa irá protestar e pedir que o incidente não seja mencionado no Moniteur. Napoleão condescenderá). Ah, se Carlos Bonaparte pudesse ver agora os seus filhos, a sua família, no meio desta corte faustosa!
A ETAPA TRIUNFAL
Napoleão acreditou que, ao fazer-se coroar na Notre-Dame pelo papa, seria admitido no círculo dos soberanos legítimos. Poderia assim abrandar a crispação internacional. Ilusão! A aristocracia europeia está decidida a fustigar a arrogância do “soldado de fortuna”. Uma nova coalizão, encabeçada pelos Ingleses, confronta-se de novo com a França. Napoleão projecta a invasão da Grã-Bretanha, mas vê-se obrigado a pôr de parte o seu intento, após a destruição da esquadra franco-espanhola pelo almirante Nelson em Trafalgar. Dirige em seguida os seus exércitos para o centro da Europa e aniquila as tropas austro-russas na maior vitória da sua carreira militar: a batalha de Austerlitz, em 1805. No dia seguinte ao da batalha, o próprio imperador austríaco lhe solicita um armistício. Em 1806, a Prússia é vencida em Iena. “Querida”, escreve ele a Josefina, “utilizei uma excelente estratégia contra os Prussianos. Ontem obtive uma grande vitória. Estive muito próximo do rei da Prússia; por pouco não o consegui aprisionar, a ele e à rainha… Sinto-me maravilhosamente bem.” Em 1807, o czar da Rússia negoceia a paz no acordo de Tilsit. Estas vitórias permitem a formação de um vasto império, com estados governados por parentes, amigos e aliados do imperador. Napoleão nomeia-se rei de Itália (Norte da península), ocupa os Estados Pontifícios, cede a Holanda ao seu irmão Luís, Nápoles a José (mais tarde entregue a Murat, casado com uma irmã de Bonaparte) e a Vestefália a Jerónimo, a quem obriga a anular o casamento com uma americana para poder desposar a princesa Catarina de Württemberg; Eugène de Beauharnais, filho de Josefina, torna-se genro do rei da Baviera. É um delírio de snobismo monárquico que, ainda hoje, muitos historiadores têm dificuldade em compreender num homem inteligente como Napoleão. Com dezasseis estados alemães constitui a Confederação do Reno e, com algumas províncias polacas, cria o grão-ducado de Varsóvia, ambos dependentes da França. A arquitectura das fronteiras políticas modifica-se ao sabor da sua criatividade. Quando, mais tarde, em Santa Helena, lhe perguntam qual foi o período mais feliz da sua vida, responde: “Talvez o de Tilsit… Sentia-me vitorioso, ditando leis, rodeado de uma corte de reis e de imperadores.” Mas o glorioso edifício do Império começava a abrir fendas.