NAPOLEÃO BONAPARTE – 2 – por Carlos Loures

O GENERAL BONAPARTE

Mas ainda tarda o começo de uma grande carreira   militar. Durante a Revolução muitos generais de brigada são facilmente   nomeados e destituídos. Ganhou o apreço de Robespierre. Mas quanto tempo se   aguentará este no poder? Participa na campanha de Itália. O seu génio militar   começa a dar nas vistas, mas chega o 9 de Termidor e o fim do Terror.   Robespierre é deposto. Napoleão é detido por ordem do seu amigo Salicetti.   Tempos de revolução, amizade frágil… Depois é libertado. Mas consideram-no   suspeito. Em 1795, as autoridades de Paris afastam-no da frente italiana e   destinam-no ao exército da Vendeia, infantaria. Recusa. “A artilharia é   que é a minha arma”. Tempos difíceis. José envia-lhe algum dinheiro. Junot,   seu ajudante de campo, reparte com ele os escassos recursos. Quer casar-se   com a bela Pauline Bonaparte mas Napoleão convence-o a desistir: “Tu não   tens nada, ela nada tem. Qual é o total? Nada.

“Setembro de 1795. A sua negativa indispôs os   ministros. Uniforme puído, anda de repartição em repartição, de antecâmara em   antecâmara. Prova de novo o gosto amargo do fracasso. Em Toulon esteve quase   a ganhar as alturas, voltou a cair. Pensa alistar-se no exército otomano, o   sultão paga bem. Porém, o destino não quer que ele venha a ser paxá. Dias   mais tarde a Convenção vai necessitar de um general enérgico. O Termidor   liquidara o Terror e pusera Barras no poder. Uma nova Constituição foi   redigida. Mas, liquidado o terror vermelho é preciso que o terror branco não   se implante. Apesar dos seus últimos actos, os novos dirigentes foram   cúmplices na execução do rei. Só o exército pode salvar a situação. Barras   quer um técnico a seu lado. Napoleão é o escolhido. A Convenção autoriza.   “Bonaparte? Quem é este tipo?”, perguntam os soldados. Comentam o   uniforme descuidado, o cabelo comprido e despenteado e, sobretudo, a sua   grande actividade. “Parecia estar em todo o lado ao mesmo tempo”,   dirá Thiébault nas suas Memórias, “a autoridade das suas decisões   assombrou todos e levou-os da admiração à confiança.” A Convenção só tem   8000 homens para enfrentar 30 000 rebeldes. Mas é Bonaparte quem comanda. Em   13 do Vindimário (5 de Outubro), os insurrectos são metralhados sem descanso.   Na escadaria da Igreja de Saint-Roch deixam cerca de 400 mortos. Massacre e   os outros desistem. Bonaparte salva a Convenção. Irá ser conhecido como o   “general Vindimário”, célebre pela rapidez das suas decisões. É   colocado à frente do exército do interior. Finalmente a águia ganha as   alturas.

É então que conhece Josefina de Beauharnais, uma   crioula graciosa (“pior do que se fosse bonita”, dirá alguém),   viúva de um general guilhotinado durante o Terror. Tem 32 anos, mais 6 do que   Bonaparte. Casam em 9 de Março de 1796. Ambos falseiam as idades para reduzir   a diferença. Prenda de casamento: Barras oferece ao jovem general o comando   supremo do exército de Itália. É o que ambiciona há muito tempo. Chega a   Nice. O exército francês, menos numeroso que o inimigo austríaco e piemontês,   está faminto, mal municiado, descalço e esfarrapado. Os generais mais antigos   mostram-se insolentes para aquele rapazito insignificante, baixo, mal   uniformizado, de cabelo comprido, com acento corso. Mas Napoleão é quem   manda, não haja dúvidas. Severo, mantém-os à distância. Afável com os soldados,   devolve-lhes a esperança, arenga à moda antiga, própria de quem leu Plutarco   e Tito Lívio: “Soldados, estais nus e mal alimentados. Eu levar-vos-ei   às planícies mais férteis do mundo. Ricas províncias e grandes cidades cairão   em vosso poder. Ali ireis encontrar honra, glória e riqueza.”Embora não tenha experiência na movimentação de   grandes unidades, aprende rapidamente. Improvisa, sobretudo. “É preciso   ser mais forte do que o inimigo num ponto e atacar nesse ponto”. As   vitórias sucedem-se: Nice, Lodi, Milão, Arcole, Rivoli. Dias gloriosos!   Napoleão dirá depois a um amigo: “Via girar o mundo aos meus pés, como   se andasse pelos ares.” Luta como um tigre. Vitórias ensombradas pelos   tormentos que Josefina lhe causa. É um marido ciumento, escreve à esposa   cartas inflamadas: “Não sabes que sem ti, sem o teu coração, sem o teu   amor, não existe para o teu marido nem felicidade, nem vida?…”…   “Longe de ti as noites são longas, tristes e melancólicas. Junto de ti,   desejo que seja sempre noite.” Josefina não percebeu ainda que está   casada com o homem mais poderoso do seu tempo. Engana-o com um tal Charles,   anónimo e medíocre, mas ao qual, segundo um contemporâneo, a história deve a   fúria selvagem que caracterizou a campanha de Itália. Vinte e um meses depois   de ter saído da capital, o soldado desconhecido transformou-se num herói   nacional. E a família começa a ser colocada: José é comissário da República   em Parma; Luciano é comissário de guerra; Luís é seu ajudante de campo em   Itália. Letícia vive em Paris com as filhas. Os detractores dizem que   Napoleão teve sorte, mas ele não acredita na sorte. Acredita na sua estrela,   o que é diferente, pois significa saber aproveitar as circunstâncias, uma das   características do génio.

O PRIMEIRO CÔNSUL

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“Soldados, do alto destas pirâmides, quatro mil   anos vos contemplam!”, diz Napoleão às suas tropas antes da batalha das   Pirâmides. A campanha do Egipto é necessária para enfraquecer a Inglaterra.   Dificuldades na travessia de um Mediterrâneo dominado pela armada inglesa,   mas o desembarque é um êxito. Os mamelucos, milícia turco-egípcia, são   vencidos. Porém, a esquadra francesa em que as tropas fizeram a travessia é   destruída por Nelson na baía de Abukir. Ficar isolado no Egipto? Não se   atemoriza: “Quanto tempo passaremos no Egipto? Alguns meses ou seis   anos… Só temos vinte e nove; teremos então trinta e cinco. Se tudo correr   bem, estes seis anos ser-me-ão suficientes para chegar à Índia.” Os   Turcos avançam na Síria para o expulsar do Egipto? Pois bem, irá ao seu   encontro, sublevará os cristãos do Líbano, avançará sobre Constantinopla e   dali irá até Viena, conquistando a Europa pela rectaguarda; isto se não se   decidir a conquistar a Índia. Este é o sonho, mas a realidade é diferente:   vence os Turcos, mas é detido em São João de Acre. As muralhas são sólidas e   Bonaparte não dispõe de artilharia suficiente. Furioso, manda queimar as   colheitas e matar todos os prisioneiros que não pode transportar: “Um   homem de Estado não tem o direito de ser sentimental”. Marido ciumento,   a infidelidade de Josefina já foi tornada pública. Os Ingleses apoderaram-se   de algumas cartas ridículas e publicaram-nas na imprensa. Numa delas, pede a   José que lhe encontre um lugar no campo onde se possa isolar, pois está farto   da natureza humana: “Preciso de solidão e de isolamento, a grandeza   aborrece-me, os meus sentimentos estão secos, a minha glória fenece; aos   vinte e nove anos esgotei tudo”.

A situação em França degrada-se de dia para dia. No   Outono de 1799 deixa as tropas no Egipto e enfrenta as dificuldades da   travessia de um Mediterrâneo dominado pelos Ingleses. Quando desembarca   depara-se-lhe um país diferente do que deixara. A maioria da população   hostiliza o Directório. Taine diz: “a jovem República sofre de   degenerescência senil. Ninguém faz qualquer esforço para a derrubar, mas   parece já não ter forças para se manter de pé.” O trio de sacerdotes   (Sieyès, Fouché e Talleyrand) que constitui a trave mestra do Directório,   pensa ser necessário um golpe de Estado. Para o êxito precisam de Bonaparte,   de “alguém capaz de violar a lei, mas respeitando-a”. E o 18 de   Brumário (9 de Novembro de 1799), demite os membros do Directório,   substituindo-os por três cônsules: Bonaparte, Sieyès e Roger Ducos. Em breve   irá assumir todo o protagonismo. Os outros dois passarão para segundo plano.   Fevereiro de 1800, plebiscito. De três milhões de eleitores apenas mil e   quinhentos votam “não”. Aberto o caminho para o poder ditatorial.   Um homem eleito por um período de dez anos governa, nomeia e demite   ministros, magistrados e funcionários. É como que uma “monarquia   pessoal”. Para as massas, a constituição tem um nome: Bonaparte. Muitas   das actuais instituições da França vêm deste período – o Instituto de França,   a divisão administrativa, o Conselho de Estado, etc. Uma concordata assinada   com a Santa Sé, põe fim ao diferendo entre a França e a Igreja. Napoleão   pensa que “a religião tem uma grande utilidade para os governantes, pois   ajuda-os a manobrar as pessoas”.

As vitórias militares e diplomáticas continuam.   Aliança de várias potências europeias contra a França, segunda campanha na   Itália. Em 1800, à frente de 60000 homens, Napoleão atravessa os Alpes e   derrota os Austríacos em Marengo. Em Amiens, em 1802, assina a paz com os   Ingleses. Cessam provisoriamente as hostilidades na Europa. Os novos êxitos   valem-lhe o título de cônsul vitalício. “A minha política é a de   governar os homens como a maioria o deseje. Esta é, segundo eu julgo, a   maneira de reconhecer a soberania do povo.” Contudo, nem todos o amam.   Em 24 de Dezembro de 1801, livrara-se por escassos segundos de morrer com a   explosão de um carro carregado de pólvora na rue Saint-Nicaise. Quando   o Senado lhe oferece a coroa imperial, os Franceses não se surpreendem. Para   eles, o Império é a continuação natural do consulado. Voltamos à Notre-Dame.   À sua frente, Josefina ajoelha e ele vai impor-lhe a coroa (casados   civilmente há oito anos, só à chegada do papa para a cerimónia da coroação   dizem ao pontífice não estar unidos pela Igreja. Por isso o casamento   realizou-se ontem à noite, à pressa, no Louvre). Napoleão jura, sobre a   Bíblia, manter a liberdade, a igualdade, a propriedade de todos os que   adquiriram bens nacionais e a integridade territorial legada pela República.   Desde há mil anos que o papa tem o privilégio de coroar os imperadores. Porém,   no momento crucial, Bonaparte rompe a tradição: ele próprio toma a coroa do   altar e a ergue nas suas mãos – ninguém, nem mesmo o papa, é suficientemente   grande para o fazer imperador (o papa irá protestar e pedir que o   incidente não seja mencionado no Moniteur. Napoleão condescenderá).   Ah, se Carlos Bonaparte pudesse ver agora os seus filhos, a sua família, no   meio desta corte faustosa!

A ETAPA TRIUNFAL

Napoleão acreditou que, ao fazer-se coroar na   Notre-Dame pelo papa, seria admitido no círculo dos soberanos legítimos.   Poderia assim abrandar a crispação internacional. Ilusão! A aristocracia   europeia está decidida a fustigar a arrogância do “soldado de   fortuna”. Uma nova coalizão, encabeçada pelos Ingleses, confronta-se de   novo com a França. Napoleão projecta a invasão da Grã-Bretanha, mas vê-se   obrigado a pôr de parte o seu intento, após a destruição da esquadra   franco-espanhola pelo almirante Nelson em Trafalgar. Dirige em seguida os   seus exércitos para o centro da Europa e aniquila as tropas austro-russas na   maior vitória da sua carreira militar: a batalha de Austerlitz, em 1805. No   dia seguinte ao da batalha, o próprio imperador austríaco lhe solicita um   armistício. Em 1806, a Prússia é vencida em Iena. “Querida”,   escreve ele a Josefina, “utilizei uma excelente estratégia contra os   Prussianos. Ontem obtive uma grande vitória. Estive muito próximo do rei da   Prússia; por pouco não o consegui aprisionar, a ele e à rainha… Sinto-me   maravilhosamente bem.” Em 1807, o czar da Rússia negoceia a paz no   acordo de Tilsit. Estas vitórias permitem a formação de um vasto império, com   estados governados por parentes, amigos e aliados do imperador. Napoleão   nomeia-se rei de Itália (Norte da península), ocupa os Estados Pontifícios,   cede a Holanda ao seu irmão Luís, Nápoles a José (mais tarde entregue a   Murat, casado com uma irmã de Bonaparte) e a Vestefália a Jerónimo, a quem   obriga a anular o casamento com uma americana para poder desposar a princesa   Catarina de Württemberg; Eugène de Beauharnais, filho de Josefina, torna-se genro   do rei da Baviera. É um delírio de snobismo monárquico que, ainda hoje,   muitos historiadores têm dificuldade em compreender num homem inteligente   como Napoleão. Com dezasseis estados alemães constitui a Confederação do Reno   e, com algumas províncias polacas, cria o grão-ducado de Varsóvia, ambos   dependentes da França. A arquitectura das fronteiras políticas modifica-se ao   sabor da sua criatividade. Quando, mais tarde, em Santa Helena, lhe perguntam   qual foi o período mais feliz da sua vida, responde: “Talvez o de   Tilsit… Sentia-me vitorioso, ditando leis, rodeado de uma corte de reis e   de imperadores.” Mas o glorioso edifício do Império começava a abrir   fendas.

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