NAPOLEÃO BONAPARTE – 3 – por Carlos Loures

O CREPÚSCULO DO IMPÉRIO

Em 1806, Napoleão procura debilitar a resistência britânica.   Decretara o bloqueio continental: encerramento de todos os portos do continente   aos barcosImagem1 ingleses. Portugal não aceita o bloqueio e o imperador, sob o   pretexto de ocupar este país, invade a Espanha e coloca no trono o seu irmão   José, até então rei de Nápoles. A resistência ibérica à ocupação napoleónica   dá lugar à Guerra Peninsular. A Corte portuguesa desloca-se para o Brasil   (1807). Facto que virá, 15 anos mais tarde, a motivar a independência   brasileira. A Áustria não aceita também o bloqueio continental, mas os seus   exércitos são mais uma vez vencidos em Wagram (1809). O imperador, que se   divorcia de Josefina por esta não lhe dar descendência, casa com Maria Luísa,   de dezoito anos, filha do imperador austríaco derrotado. Não foi uma decisão   fácil. Napoleão ama verdadeiramente Josefina, apesar das suas   “extravagâncias”. Porém, convencida pela argumentação de Fouché e   de seu filho Eugène, ela própria insiste nesse “sacrifício pessoal a   favor dos interesses do Estado”. Conserva o título de imperatriz, uma   pensão de dois milhões e Malmaison.

Entretanto, a Rússia, prejudicada pelo bloqueio   continental, decide romper o tratado de Tilsit e restabelece as relações   comerciais com a Grã-Bretanha. Em 1812, para subjugar o czar, Napoleão reúne   um exército de 675 000 homens, a Grand Armée, e invade a Rússia. Os   Russos vão recuando, evitando combater e Bonaparte vê-se forçado a ir   penetrando no interior do território. Após algumas batalhas não decisivas, o   imperador encontra, em 7 de Setembro, o exército russo entrincheirado em   Borodino. As perdas de ambos os lados são numerosas, o resultado da batalha   não é claro, mas Napoleão pode vencer se utilizar as forças de reserva. Não   se decide e os generais estão furiosos com este sintoma de fraqueza. A que se   deve esta hesitação? Entre a Grand Armée e a França há um imenso   território. E se, nas suas costas, a Alemanha e a Áustria se voltam contra   ele? Por isso, dirige-se para Moscovo. À noite, a cidade “arde como uma   tocha”, pois os russos (ou os saqueadores franceses), incendiaram-na.   Apesar disso, Napoleão, afirma que “Moscovo constitui uma excelente   posição política” para negociar a paz. E enquanto espera, reorganiza a Comédie   Française, através de um decreto assinado ali, entre as ruínas fumegantes   de Moscovo. Escreve ao seu bom amigo, o czar Alexandre, não recebendo   resposta. Oferece a paz ao general Kutuzov. É recusada. Agora só lhe resta   retirar. As tropas francesas encontram-se isoladas nas estepes, acossadas por   temperaturas inferiores a -30º C, e sem abastecimentos. Retirando em   condições infra-humanas, apenas 18 000 sobreviventes chegam à Polónia.

OS ÚLTIMOS ANOS

O fracasso da campanha da Rússia incita os inimigos   de Napoleão a aliar-se e a dar-lhe batalha. Em Leipzig, na chamada Batalha   das Nações, em 1813, as tropas francesas são derrotadas pelos austro-russos.   “Só o general Bonaparte pode agora salvar o imperador Napoleão”,   diz ele próprio. Mas engana-se. Pouco depois, 600 000 russos, alemães e   ingleses invadem a França e, em Março de 1814, entram em Paris. Ao saber que   José capitulou ante os generais inimigos, comenta “Que cobardia!”,   e acrescenta “Desde que eu não esteja, só fazem disparates.”   Abandonado pelos seus marechais, vê-se obrigado a abdicar e é desterrado para   a ilha de Elba. A grande aventura parecia ter chegado ao fim.

Napoleão cai e Luís XVIII restaura a dinastia   bourbónica. As dissensões surgidas no interior do país levam-no a regressar a   França. No dia 20 de Março de 1815 entra triunfalmente em Paris. Confrontadas   novamente com os exércitos aliados (Grã-Bretanha, Áustria e Prússia), são as   forças napoleónicas definitivamente derrotadas em Waterloo pelo general   Wellington, em 18 de Junho de 1815. O imperador entrega-se aos Ingleses e é   por estes deportado para Santa Helena, uma pequena ilha perdida no Atlântico   sul, “para lá de África”, como dizem os seus carcereiros. Ali,   sozinho com as suas reflexões, dirá: “O infortúnio também encerra glória   e heroísmo. Se tivesse morrido no trono, com a auréola da omnipotência, a   minha história ficaria incompleta para muita gente. Hoje, mercê da desgraça,   posso ser julgado por aquilo que realmente sou.”

Em 5 de Maio de 1821, com uma violenta tempestade   assolando a ilha, Napoleão morre, segundo a opinião do médico que o assistiu,   não de um cancro no estômago, como seu pai, mas de uma úlcera provocada por   uma má dieta e, sobretudo, pela ansiedade. Um antigo companheiro de armas   envolve-o no capote que usou na Batalha de Marengo.

3 Comments

  1. Mesmo para Napoleão, no fim da vida, a História tornou-se um pesadelo, o mesmo do qual James Joyce , com a voz de seu “autorretrato” Stephen Dedalus, bem mais tarde, gostaria de despertar.
    Bravo, Loures! Belo trabalho.
    Parabéns a você e às “Vidas” do Correia da Silva.
    Rachel Gutiérrez

    1. Obrigado, Rachel Gutiérrez. As normas das «Vidas Lusófonas», exigindo concisão, fazendo guerra aos adjectivos, impossibilitam grandes apuros formais. Mas a receita do Fernando Correia da Silva é, pelos vistos, eficaz – cerca de 30 milhões de visitas comprovam essa eficácia.

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