Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 126

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Estado do corpo

O responsável do rancho folclórico de Barcelinhos reclama cinco euros, dou-lhos pensando que é caro para um poiso sem cozinha e com camas sujas, ora o pior é o duche… Gelada já eu vinha, hoje não havia sol e caminhei devagar, espero dez minutos, nua, num espaço gelado, procedo à lavagem – muito rápida – com água gelada… Fico a bater o dente. No Caminho de 2010 tive bolhas, no de 2011 queimaduras, no de 2012 uma tendinite, qual será agora o incómodo? A bronquite (decerto).
Encontro dois alemães que ontem pernoitaram em S. Pedro de Rates, viajam separados mas por comunidade de língua, alojamento e circunstância vão jantar juntos, inquirem qual a temperatura do duche, informam que os outros trinta seguiram para o albergue da Portela – fizeram bem. Eu, que não dormi durante a noite, que caminhei mais doze ou treze quilómetros, recuso-me a passar o serão num restaurante, feio, frio, como a maioria dos restaurantes, não, obrigada, sinto as forças necessárias para ir comprar pão, queijo, fruta, iogurte e vir comê-los para aqui… Não mais. (Conheço bem esta cidade, costumo vir como turista, hei-de voltar outras vezes.) Depois preparo as bagagens. E deito-me.
Embora os alemães fizessem barulho, acendessem as luzes ou germânicos não foram, durmo bem até às cinco horas, às seis levanto-me e – civilizada – encho a mochila às escuras.
Barcelos nunca é tão bela como de noite, como ao amanhecer, quando podemos ver os edifícios que, no resto do dia, são escondidos por carros estacionados ou em movimento. Sempre recordarei estas travessias que o Caminho de Santiago me proporcionou. (Os raios de sol nascente na Casa do Menino Deus… Por exemplo.)
Pouco antes de chegar a Tamel, passo num bosque onde no ano passado surgiu, em sentido inverso, um português sem abrigo que há muito, afirma ele, percorre o Caminho de Santiago, entra em alguns albergues durante a noite, aproveita uma ou outra cama livre. Horror dos horrores… Calçava botas pertencentes a dois pares distintos! Portanto dois peregrinos ficaram naquela noite sem o que traziam de mais necessário; e tiveram que interromper a caminhada. (Embora o meu pé seja mais pequeno que o da maioria dos vagabundos, doravante ninguém me obrigará a pôr as botas na prateleira a elas destinada.)
Chego antes das nove ao albergue da Portela, de onde alguns peregrinos ainda não saíram, aproveito para fazer uma pausa, como flocos de aveia, dois iogurtes, nozes, amêndoas, tudo misturado: uma quantidade prodigiosa. Converso com três americanos, com um pai e uma filha alemães; depois prossigo a caminhada. Sinto a carga mais leve… Acabo de ingerir quase um quilo de vitualhas – certo – porém o peso da mochila apenas indica o estado do corpo. Bom sinal, portanto. A etapa de Barcelos a Ponte de Lima é de trinta e três quilómetros: resta-me percorrer mais vinte e três.

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