O padre Manuel fora internado no Hospital Militar em 17 de Dezembro de 1972. O seu estado físico não inspirava cuidados especiais. Era no plano psíquico que as coisas se apresentavam com alguma gravidade. Acordava por diversas vezes durante a noite, gritando e acordando toda a enfermaria. O «padre espanhol» tornara-se uma figura indesejada por doentes, auxiliares, enfermeiros e médicos. Todos reconheciam que, quando acordado, o «espanhol» era de uma grande gentileza; à noite transformava-se num ogre insuportável. Alguma superstição reinante entre aqueles jovens provincianos na sua maioria, salvava o padre de maiores problemas. Embora falassem em sevícias, ninguém se aventurara ainda a bater no padre. Mas a paciência estava a atingir os limites.
Um furriel erudito falara no paralelo entre a dupla personalidade que o «espanhol» demonstrava e o romance de Robert Louis Stevenson, O Médico e o Monstro, em que o amável Dr. Jekill se transformava à noite no malvado Edward Hyde. Os militares amontoados na enfermaria, adaptaram os nomes e pela manhã saudavam Manuel com um coro de «Buenos días, Aide!» e despediam-se antes de soar o toque de silêncio com um ruidoso «Adiós, hasta mañana, Jáquil». Às vezes, acrescentavam «Jáquil, cabrón».
O alferes médico Alfredo Nunes estava a fazer o que era óbvio a nível terapêutico, com doses suplementares de sedativos. Estava a ser pressionado para providenciar a transferência do padre para uma unidade de psiquiatria. Uma tarde, foi abordado por um alferes das tropas especiais que o convidou para uma cerveja. Nunes percebera que se tratava de um assunto sério. Aquele rapaz alto, magro, alourado, que mantinha um aspecto civil apesar do uniforme, inspirava confiança.
A “cerveja” prolongara-se pelo fim da tarde quente. O alferes Nunes, que já ouvira os boatos que sobre o massacre levado a cabo numa remota aldeia do Tete, ouviu a descrição crua que o visitante fez e compreendeu os uivos de horror que o doente soltava. E o alferes Sousa explicou-lhe até que ponto a vida do padre Manuel corria perigo.