A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 33 – por Sérgio Madeira

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Capítulo trinta e três

Porto Santo, segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Premeditando um jantar sem restrições, o  almoço fora convenientemente leve – saladas e sanduíches, acompanhadas por água mineral – refeição tomada no snack-bar da praia, e da sesta terapêutica,  beneficiando do tempo seco e da temperatura amena que se fazia sentir,  António e Cecília passearam um pouco a pé pela estrada,  indo ao centro comercial que ficava dois ou três quilómetros para oeste, a meio caminho da Calheta.  Enquanto caminhavam, António confiou a Cecília a sua preocupação com Alfredo. Na última tentativa, feita nessa manhã, fora atendido pela empregada doméstica – «O senhor doutor está em viagem»…

Depois,  o táxi do senhor Fernando levou-os até ao extremo oeste da ilha, a Ponta da Calheta,  junto do ilhéu da Cal – o tal réptil esfíngico que fitava o horizonte com aparentes más intenções.  No Pôr-do-Sol, onde António já estivera pela manhã, bebendo a bica com que premiava o seu passeio pelo areal, convidaram o taxista para uma cerveja e estiveram em amena conversa. Comentaram as críticas de Cavaco Silva a José Sócrates. O senhor Fernando revelou-se um ferrenho militante socialista e verberou a atitude do presidente da República que quebrava a neutralidade a que estava institucionalmente obrigado e fazia, segundo Fernando, uma descarada política partidária.

António que, sendo de esquerda, pouco se interessava pelas tricas entre os «sócios» do bloco central, vendo o homem ir ficando com o rosto vermelho à medida que ia atacando o PSD, tentou desviar a conversa para o futebol. Mas o senhor Fernando estava embalado e dedicava agora a sua fúria ao presidente da Região Autónoma que se negava a aceitar a lei das quotas de paridade nas eleições para o parlamento europeu.

– Um palhaço. – disse Cecília.

– Minha senhora, não ofenda os palhaços – são gente boa!… – riram.
Quando os deixou no hotel, não aceitou que pagassem a corrida –

– Hoje o meu carro não foi um táxi, nem os senhores foram clientes – e rematou – Hoje foi um passeio de amigos!

António ia a insistir, mas Cecília travou-lhe os protestos e estendeu a face para um beijo.

– Obrigada, amigo Fernando.

Quando, na recepção pediam a chave, ouviram uma voz vinda de um maple.

– Então, estão a gostar de Porto Santo?

Voltaram-se. Na frente deles estava Alfredo Nunes.

 

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