Premeditando um jantar sem restrições, o almoço fora convenientemente leve – saladas e sanduíches, acompanhadas por água mineral – refeição tomada no snack-bar da praia, e da sesta terapêutica, beneficiando do tempo seco e da temperatura amena que se fazia sentir, António e Cecília passearam um pouco a pé pela estrada, indo ao centro comercial que ficava dois ou três quilómetros para oeste, a meio caminho da Calheta. Enquanto caminhavam, António confiou a Cecília a sua preocupação com Alfredo. Na última tentativa, feita nessa manhã, fora atendido pela empregada doméstica – «O senhor doutor está em viagem»…
Depois, o táxi do senhor Fernando levou-os até ao extremo oeste da ilha, a Ponta da Calheta, junto do ilhéu da Cal – o tal réptil esfíngico que fitava o horizonte com aparentes más intenções. No Pôr-do-Sol, onde António já estivera pela manhã, bebendo a bica com que premiava o seu passeio pelo areal, convidaram o taxista para uma cerveja e estiveram em amena conversa. Comentaram as críticas de Cavaco Silva a José Sócrates. O senhor Fernando revelou-se um ferrenho militante socialista e verberou a atitude do presidente da República que quebrava a neutralidade a que estava institucionalmente obrigado e fazia, segundo Fernando, uma descarada política partidária.
António que, sendo de esquerda, pouco se interessava pelas tricas entre os «sócios» do bloco central, vendo o homem ir ficando com o rosto vermelho à medida que ia atacando o PSD, tentou desviar a conversa para o futebol. Mas o senhor Fernando estava embalado e dedicava agora a sua fúria ao presidente da Região Autónoma que se negava a aceitar a lei das quotas de paridade nas eleições para o parlamento europeu.
– Um palhaço. – disse Cecília.
– Minha senhora, não ofenda os palhaços – são gente boa!… – riram.
Quando os deixou no hotel, não aceitou que pagassem a corrida –
– Hoje o meu carro não foi um táxi, nem os senhores foram clientes – e rematou – Hoje foi um passeio de amigos!
António ia a insistir, mas Cecília travou-lhe os protestos e estendeu a face para um beijo.
– Obrigada, amigo Fernando.
Quando, na recepção pediam a chave, ouviram uma voz vinda de um maple.
– Então, estão a gostar de Porto Santo?
Voltaram-se. Na frente deles estava Alfredo Nunes.