AO REDOR DO LAROUCO – 1 – por Rui Rosado Vieira

Imagem2

A ENTRONIZAÇÃO DO BOI

Manhã brilhante de sol de Junho. Dois toiros em tamanho natural, em bronze luzidio e em posição de combate, testemunham à entrada da vila que o homem não é, por estas paragens, o único ser vivo a merecer honras de estatuária monumental.

A confirmar a importância do quadrúpede nas tradições culturais da região, um folheto espalhado pelos lugares públicos avisa-nos que, dentro de poucos dias, terão início, prolongando-se até finais de Agosto, os campeonatos de lutas de bois.

Para tal fim, os donos dos bichos tratam de inscrever o touro mais robusto e combativo, que lhes permita derrotar os adversários que sucessivamente lhe vão cabendo no sorteio e, assim, tentar arrecadar os importantes prémios pecuniários atribuídos ao vencedor de cada “liada” e granjear fama e cotação no mercado da especialidade a favor do animal de que é proprietário.

O principal campeonato do ano, devidamente calendarizado e com prémios significativos em dinheiro, decorre nos meses de Verão na sede de concelho, em local especificamente preparado para o efeito.

O bilhete de entrada no recinto para assistir às “chegas”, onde por vezes se contam mais de mil pessoas, custa, em regra, dez euros e o espectáculo tanto pode durar mais de meia hora como escassos minutos.

A paixão das gentes da região face ao original entretenimento é muito superior ao manifestado em relação ao futebol ou a qualquer outro desporto popular praticado em Portugal. Face a tal entusiasmo as “chegas” ou “liadas” passam, após terminar o mencionado campeonato, a acontecer aos fins-de-semana em quase todas das aldeias do concelho. Decorrem, na sua grande maioria, ao longo do mês de Agosto, quando os emigrantes, vindos da Europa e até dos Estados Unidos, chegam à região em elevado número para passar férias.

Até há década de 1970, as “liadas” eram muito mais que um simples entretenimento domingueiro. Pela forma como se desenrolavam, pelo seu primitivo purismo e pelas características pagãs, constituíam o mais importante acontecimento festivo do ano nas terras trasmontanas do barroso.

Segundo testemunhos idóneos, as lutas entre os animais, ao comercializarem-se, aumentaram de frequência, perdendo qualidade, em grande parte, devido ao cansaço provocado nos animais em resultado dos numerosos combates em que participam.

No decurso dos últimos três decénios, os bois envolvidos nos combates deixaram de ser pertença do povo, para serem de indivíduos que, a título particular e com fins lucrativos, a tal actividade se dedicaram.

Os toiros escolhidos para disputar as “chegas”, ao serem propriedade individual, deixaram de representar o conjunto dos habitantes de cada aldeia. Já não transportavam para o recinto da luta as ancestrais rivalidades entre os naturais de cada povoado.

Os combates entre bovinos esvaziaram-se do seu conteúdo mais importante: o da vitória do seu touro significar a supremacia da força e da virilidade das gentes da sua aldeia face às do touro da aldeia derrotada.

Testemunhos orais e escritos dão notícia da singular importância que, o chamado “boi do povo” teve até decénios atrás, na vida das sociedades comunitárias da região barrosã.

O mais poderoso e viril toiro era escolhido não só para representar o povo de cada lugar nas “liadas”, como para, através do seu sémen, garantir a prenhez das vacas e a boa qualidade das futuras crias.

O animal tinha o estatuto de uma divindade e privilégios singulares. Possuía estábulo exclusivo. Guardador próprio e lameiro, onde mais nenhum outro animal podia pastar. Recebia do povo reconhecimento sem limites e prerrogativas exclusivas das pessoas ou entidades de elevado estatuto.

O boi do povo era, segundo o escritor Miguel Torga, “Um deus de cornos e testículos que depois de cada chega ou de cada vitória, a gratidão dos fiéis cobre de palmas, de flores, cordões de oiro e de ternura. Um deus que a devoção adora sem pedir outros milagres que sejam os da força e da fecundidade, provados à vista da infância, da juventude e da velhice. Um deus a quem se dão gemadas e cervejas para que possa inundar as vacas de sémen, as moças de esperança, os moços de certezas e a senilidade de gratas recordações. Um deus eternamente viril, num paraíso sem pecado original.” (1)

(1) Miguel Torga, in “Diário X”, pp.158-159

 

 

 

 

 

 

 

2 Comments

Leave a Reply