Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Frédéric Beigbeder, escritor. LE MONDE 06.11.2013
É claro, nós bem o procurámos. Mas o “manifesto das 343 f. da p. ” desencadeou tais ataques e insultos que sou forçado a clarificar o meu ponto de vista de pequeno f.da p. Esta ideia veio-me à cabeça durante uma conversa com Elisabeth Lévy em 10 de Outubro; Eu tinha aceite uma entrevista com a revista Causeur, porque acho que é sempre saudável discutir com pessoas que não concordam comigo (Elisabeth era contra o casamento gay, enquanto eu estava a favor).
Em dada altura da entrevista, ela evocou a questão da abolição da prostituição, e foi quando eu sugeri a ideia de uma petição dos clientes das prostitutas, uma petição das 343 ‘f. da p.’ que alegaram ter abortado, em 1971. A revista Le Causeur decidiu fazer a sua cobertura, com um título de que eu não sou o autor: « Touche pas à ma pute » que em português daria “Tire as mãos de cima da minha puta.” Apresentado por todo o lado como o iniciador dessa petição, encontrei-me na situação de ser o porta-voz dos hetero-beaufs-reacs-machistes-ringards-obsedes.
Eu tinha subestimado a violência da Internet. Assumo sem dificuldade que se tenha suscitado a condenação de todos estes odiosos sujeitos, de uma Internet que parece ter sido criada para permitir que todos os amargurado se ajudem uns aos outros. Mas enfim: imagine-se um brincalhão pregado a um poste e coberto de escarros e com umas palas de burro na cabeça: o brincalhão acabará, eventualmente, por se sentir levado a justificar-se.
A ministra dos direitos das mulheres, Najat Vallaud-Belkacem, foi a primeira a denunciar o paralelo entre as 343 f. da p. e os 343 f. da p., considerando que “se as 343 f.da p. pediam para poderem dispor do seu corpo, os 343 f. da p. pedem para disporem do corpo dos outros”.
A fórmula soa bem, mas é duplamente falsa. Ninguém reclama o direito de dispor do corpo de outro numa relação entre adultos que a assumem, que a consentem; trata-se de uma troca tristemente clara (prazer contra dinheiro), cujo principal defeito é o de ter deixado de corresponder à moral republicana.
LIBERDADE PARA dispor do seu corpo
Quanto à prostituta que escolheu a sua actividade, não se bate ela pela liberdade de dispor do seu corpo? Passemos por cima disso. Não deveria eu exprimir-me sobre um assunto que conheço mal, com as minhas investigações a terem terminado no Barão da avenida Marceau (época antiga, fim de 1980, início dos anos 1990, antes que este bar de “companheiras para a bebida ” se ter transformado numa boite da moda). Na minha mais humilde opinião, só a palavra das prostitutas deveria ser ouvida.
A única verdade neste meu paralelo provocador entre “filhas da p.” e “filhos da p.”, era isto: em 1971, as mulheres que abortavam eram estigmatizados, humilhadas, insultadas ; em 2013, os clientes de prostitutas são estigmatizados, humilhados, insultados. É este o ponto comum. Propor uma lei para penalizar os clientes das prostitutas significa estar a denunciar pessoas que se encontram, quer se queira quer não, em situação de dificuldades e de isolamento. Porém, do que nunca se fala neste debate é da miséria sexual.
Penalizar os clientes das prostitutas significa estar a humilhar indivíduos já frustrados porque não têm acesso à fruição maravilhosa prometida pela publicidade, pelo cinema, pelas revistas e pela televisão. Da mesma forma que ma mulher que aborta não é uma vagabunda, um cliente de prostituta não é um filho da p. ; é um infeliz perdido num tempo de festa sexy.
Caricatura-se a prostituição como sendo uma relação sórdida numa valeta, enquanto que isso também pode ser um homem depressivo salvo num bar por uma mulher que o escuta e lhe estende a mão para o ajudar a passar a noite. O que se passará quando deixar de ter acesso até a esta válvula de segurança? Alguns tornar-se-ão perigosos?
É lícito perguntar como é que a polícia irá proceder para parar esses ignóbeis sabujos: em que altura é que eles passam a estar na situação de ilegalidade? Quando eles falarem com a rapariga, quando estiver com ela na cama, quando lhes estiverem a pagar? Os infractores vão ser presos, algemados, colocados sob custódia? Quem é que os vai denunciar, as prostitutas, os vizinhos, a sua esposa?
QUID da prostituição homossexual?
A prostituição existe para os dois sexos: muitas mulheres sós, mulheres idosas, abandonadas, são encantadas de ter recurso a um ter recurso a um boy. E quid da prostituição homossexual? A única causa que parece ser entendida: um cliente que vai ter com uma prostituta do sexo feminino é um terrível machista, mas se um homem for ter com outro homem, quem é que domina quem?
Pessoalmente acreditava ingenuamente que a nossa petição suscitaria um debate sobre esta nova extensão do domínio da polícia. Mas não haverá nenhum debate: o assunto é demasiado tabu e a época demasiado puritana. A lei será votada provavelmente por unanimidade, como se faz agora em todas as grandes democracias.
Tenho inveja dos alunos de Maio 68, para quem “era proibido proibir.” Agora que eles estão no poder, os antigos de 68 proclamam sobretudo que “é urgente nada mais permitir”. Provavelmente há conselheiros do governo encarregados diariamente de encontrar novas proibições.
Permitam-me sugerir as próximas interdições possíveis: boxe, rugby, a manteiga, o foie gras, a scooter, skate, vodka, filmes pornôs, touradas, queijo não pasteurizado, fazer amor sem preservativo, as 24 horas de Le Mans, o bronzeamento sem creme solar, os bombons, o chocolate, a Coca-Cola?
Há na França como quase todos os lugares no mundo, uma hipocrisia extraordinária quanto à prostituição: a maioria dos nossos concidadãos já foi uma vez, pelo menos na sua vida visitar uma profissional. Contudo, ninguém o confessará. Vivemos um capitalismo de hipócritas em que a prostituição é uma grotesca metáfora.
A França proibiu os bordeis de portas fechadas sem ter proibido as raparigas do prazer; prepara-se agora para prejudicar a clientela autorizando o aliciamento passivo. Em 2012, foi inaugurado um esplêndido Museu Toulouse-Lautrec em Albi enquanto hoje este pintor é verbalizado como um homem terrivelmente nojento.
E estou pronto para apostar que, entre todas e todos aqueles que foram insultados “pelo Manifesto dos 343 f. da p.”, haverá muitos e muitas que se terão apaixonado pelas musas de Baudelaire, Maupassant, Toulet, Proust, Simenon, Henry Miller e Houellebecq e choram a morte de Lou Reed que homenageava os bas-fonds cantando : « Hey babe, take a walk on the wild side »
Frédéric Beigbeder (Écrivain)
http://www.lemonde.fr/idees/article/2013/11/06/halte-au-triomphe-de-l-interdit_3509404_3232.html

Obrigada pela partilha de um problema social para o qual mesmo
Um beco sem sada com o agreement do governos -Fecham os olhos e em vez de se empenharem em encontrar sadas ,fazem-se de cegos ,surdo e mudos -Hipcritas .Maria