Selecção de Júlio Marques Mota. Tradução de Flávio Nunes.
(CONCLUSÃO)
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Os decisores das políticas praticadas devem impor a distribuição dos seus efeitos dolorosos não somente de uma forma justa mas de uma forma que pareça igualmente justa. Os altos quadros, os executivos, e os directores que não conseguem acompanhar adequadamente as suas firmas de investimentos devem perder os seus empregos, as suas opções sobre acções, stock-options, e os bónus dos últimos anos – se os accionistas não impuserem tais penalizações, deve então ser o governo a fazê-lo. Os accionistas que tenham votado para tais executivos e directores devem analogamente perder o seu capital. É necessário que o Presidente fale com as pessoas, explicando- lhes a crise e as respostas do governo, repetidamente se assim se justificar, numa linguagem que o eleitor médio possa compreender.
O que é que deve ser feito?
Apesar da recuperação frágil da economia dos EUA, é difícil avaliar o trabalho da administração Obama sobre as consequências da crise financeira. Por um lado, o Presidente e a sua equipa cometeram erros enormes – acreditaram que a recuperação económica estaria já ali, ao virar da esquina, acreditaram que a oposição feita pelos banqueiros à reforma financeira poderia ser facilmente neutralizada e até mesmo eliminada e que a reorganização do sector imobiliário nem precisaria de ser reorganizado nem de uma reestruturação em grande escala das dívidas sobre as hipotecas, isto apenas citando três exemplos.
Por outro lado, é importante lembrar que a reacção a uma crise é muito mais difícil do que parece. Além disso, como os economistas do governo Obama rapidamente sublinharam, o Congresso colocou obstáculos extraordinários na trajectória das reformas pretendidas por Obama. Também vale a pena sublinhar que, apesar de a crise ter tido como origem os EUA, a Europa ter depara-se com enormes efeitos de repercussão. Por outras palavras, a situação poderia ter sido muito pior, como o é agora no outro lado do Atlântico. Ainda assim, é inegável que a gestão de Obama sobre a crise não produziu uma verdadeira retoma, que a reconstrução institucional estagnou e que as lições adequadas a tirar da crise financeira não penetraram na política dominada pelo dinheiro como se vê agora na maior economia do mundo.
Mas isso não significa que os políticos e os economistas possam desistir. No curto prazo, pouco pode ser feito a não ser o trabalho de derrubar os nomes daqueles políticos e economistas que previram um processo inflacionista e a falência nacional como resultado da utilização dos estímulos monetários e orçamentais, os mesmos economistas que previram, afinal, o crescimento como resultado das políticas de austeridade – e lembrar aos eleitores e aos jornalistas de quem estava certo e de quem estava errado.
A médio prazo, as políticas irão mudar. Em 1935, seis anos depois do início da Grande Depressão, todas as grandes economias adoptaram programas equivalentes aos aplicados por Roosevelt através do New Deal, excepto a França, cujo contínuo apego ao padrão-ouro serviu como um aviso horrível. Quanto ao Reino Unido, se o seu governo de coligação tivesse sobrevivido, com a sua fortíssima aposta em aumentar as políticas de austeridade, este país poderia desempenhar um papel semelhante ao da França e como um extraordinário aviso contra a prioridade nos cortes nas despesas públicas sobre a retoma económica, quando a procura era inexistente – uma forte advertência sobre as consequências de, tal como o economista Sir Ralph Hawtrey, especialista sobre a Depressão britânica escreveu, “gritar, há fogo, há fogo na arca de Noé” O momento político a dar a prioridade à retoma e ao pleno emprego pode, ainda, vir se aqueles que compreendem o momento actual o puderem reconhecer na sua dimensão como um enorme problema e aproveitá-lo.
No longo prazo, no entanto, a tarefa principal continua a ser a de educar os accionistas de que não é sensato fornecer aos operadores das salas de mercados e gestores que supostamente trabalham para eles enormes fortunas com base em resultados de curto prazo, e continua a ser, igualmente, a de educar os políticos de que tais sistemas de remunerações disponíveis criam riscos demasiado grandes para poderem ser aceitáveis. Deveria ser possível realizar essa tarefa. Um dia. Talvez.
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Para ler a terceira parte deste trabalho de Bradford DeLong, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
