A SEGUNDA GRANDE DEPRESSÃO – PORQUE É QUE A CRISE É PIOR DO QUE PENSÁVAMOS, de J. BRADFORD DELONG – IV

Selecção de Júlio Marques Mota. Tradução de Flávio Nunes.

J. Bradford DeLong

Julho de  2013

(CONCLUSÃO)

Os decisores das políticas praticadas devem impor a distribuição dos seus efeitos dolorosos não somente de uma forma justa mas de uma forma que pareça igualmente justa. Os altos quadros, os executivos,  e os directores que não conseguem acompanhar adequadamente as suas firmas de  investimentos devem perder os seus empregos, as suas opções sobre  acções, stock-options,  e os bónus dos últimos anos – se os accionistas não  impuserem  tais  penalizações,  deve então ser o governo a fazê-lo. Os accionistas que tenham votado para tais executivos e directores devem analogamente perder o seu capital. É necessário que o Presidente fale com as pessoas, explicando- lhes a crise e as respostas do governo, repetidamente se assim se justificar, numa linguagem que  o eleitor médio possa compreender.

O que é que deve ser feito?

Apesar da recuperação frágil da economia dos EUA, é difícil avaliar o trabalho  da administração Obama  sobre as  consequências da crise financeira. Por um lado, o Presidente e a sua equipa cometeram erros enormes – acreditaram  que a recuperação económica estaria já ali, ao virar da esquina, acreditaram que a oposição feita pelos  banqueiros  à reforma financeira poderia ser facilmente neutralizada  e até mesmo eliminada  e que a reorganização do sector  imobiliário nem  precisaria de ser reorganizado nem  de  uma reestruturação em grande escala das dívidas sobre as hipotecas, isto apenas citando três exemplos.

Por outro lado, é importante lembrar que a reacção a uma crise  é muito mais difícil do que parece. Além disso, como os economistas do governo Obama rapidamente sublinharam,  o Congresso colocou obstáculos extraordinários na trajectória das reformas pretendidas por Obama.  Também vale a pena sublinhar  que, apesar de a crise ter tido como origem os EUA, a Europa ter depara-se com enormes efeitos de repercussão. Por outras palavras, a situação poderia ter sido muito pior, como o  é agora no outro lado do Atlântico. Ainda assim, é inegável que a gestão de Obama sobre a crise não produziu uma verdadeira retoma,   que a reconstrução institucional estagnou  e que as lições adequadas a tirar da  crise financeira não penetraram na política dominada pelo dinheiro como se vê agora na maior economia do mundo.

Mas isso não significa que os políticos e os economistas possam  desistir. No curto prazo, pouco pode ser feito a não ser o trabalho de  derrubar os nomes daqueles  políticos e economistas  que previram um processo inflacionista  e a  falência nacional como resultado  da utilização dos  estímulos monetários e  orçamentais, os   mesmos  economistas que previram, afinal, o crescimento como resultado das políticas de austeridade – e lembrar aos eleitores e aos jornalistas de quem estava certo e de quem estava errado.

A médio prazo, as políticas  irão  mudar. Em 1935, seis anos depois do  início da Grande Depressão, todas as grandes economias adoptaram programas  equivalentes aos aplicados por Roosevelt através do  New Deal, excepto a França, cujo contínuo apego ao padrão-ouro serviu como um aviso horrível. Quanto ao Reino Unido, se o seu governo de coligação tivesse sobrevivido, com a  sua fortíssima aposta em  aumentar as políticas de austeridade, este país  poderia   desempenhar um papel semelhante ao da França e como um  extraordinário aviso  contra a prioridade nos cortes nas despesas  públicas  sobre a retoma  económica, quando a procura era  inexistente –   uma forte advertência sobre as consequências de, tal  como o economista Sir Ralph Hawtrey, especialista sobre a Depressão britânica escreveu,  “gritar, há fogo, há fogo na arca de Noé”  O momento político a dar a  prioridade à retoma e ao  pleno emprego pode, ainda, vir  se aqueles que compreendem o momento actual  o puderem  reconhecer  na sua dimensão como um enorme problema e aproveitá-lo.

No longo prazo, no entanto, a tarefa principal continua a ser a de educar os accionistas de que não é  sensato  fornecer  aos operadores das salas de mercados e gestores  que supostamente trabalham para eles enormes  fortunas com base em resultados  de curto prazo, e continua a ser,  igualmente,  a de  educar os políticos de que tais  sistemas de remunerações  disponíveis criam riscos demasiado grandes  para poderem ser aceitáveis. Deveria ser possível realizar essa tarefa. Um dia. Talvez.

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Para ler a terceira parte deste trabalho de Bradford DeLong, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/11/22/a-segunda-grande-depressao-porque-e-que-a-crise-e-pior-do-que-pensavamos-de-j-bradford-delong-iii/

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