CELEBRANDO LUCÍLIA DO CARMO – 2 – por Álvaro José Ferreira

(Continuação)

Nota prévia:

Para ouvir os temas de Lucília do Carmo, há que aceder à página

http://nossaradio.blogspot.pt/2013/11/celebrando-lucilia-do-carmo.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

Imagem1Teria sido erro não incluir a “Rapsódia de Fados” [1958] por excessivo escrúpulo dela conter imperfeições. Falamos do desrespeito pelo compasso patente no duplo remate do fado Sem Pernas e na entrada para o Mouraria, de resto soberbamente disfarçado pelos guitarristas. São faltas desculpáveis pelo arrebatamento da interpretação, em que o fadista muitas vezes não espera pelos guitarristas e deixa escapar os versos ou os prolonga um pouco mais porque a alma assim lho pede. Uma “biografia” é isso mesmo, o retrato tão fiel quanto possível de uma carreira. E esta rapsódia é, isso sim, uma portentosa manifestação do talento de Lucília do Carmo, a merecer análise mais detalhada. Para começar, é uma peça muito difícil, pois são vários fados num só, muito diferentes uns dos outros, havendo até mudanças de tom entre eles. A concentração para produzi-los tem de ser enorme e Lucília do Carmo consegue tratá-los, um por um, de uma forma superior. A letra muito castiça de Linhares Barbosa ajuda a identificá-los, pois menciona quase todos. Em contraste com o “triste Fado Menor” de abertura, o arranque vibrante e pleno de garra daquele “Guitarra toca o Corrido” é, só por si, um paradigma. Opõe-se-lhe a suavidade com que é abordado o Dois Tons. E que dizer do “Devagar, guitarra amiga…” que inicia o Sem Pernas? O Mouraria, arrastado como compete, é a prova de que se canta diferentemente do Corrido e não é só o desenho melódico da guitarra (aqui a fazer um Mouraria Antigo) que lhe determina a casta.

Fado raro, pouco ouvido, é o fado Macau, dando suporte à letra do “Manjerico” [1960] e mostrando-nos uma Lucília do Carmo tão à-vontade nos fados saltadinhos e vivos como nos fados lentos. Chegamos a “Não Voltes à Minha Porta” [1966], uma belíssima letra de Frederico de Brito, a surpreender pelo inesperado conceito com que termina cada sextilha. Pedra de toque para avaliar fadistas, a “Marcha do Marceneiro” tem nesta interpretação de Lucília do Carmo uma das suas mais elevadas expressões. A alternância entre os timbres doces e ásperos, o domínio da dinâmica vocal, das suspensões, podiam ser matéria de estudo, se a houvesse, para novos fadistas.

“Madragoa” [1966], outro ponto alto desta “biografia”, da carreira da Artista e da História do Fado, é um monumento comovente a um bairro, àquilo que deve ser uma letra de fado, a uma voz que sabemos não ter substituta. Ouve-se com a certeza de que mais ninguém cantará este fado como ela cantou. O crescendo de qualidade que José Pracana teve o cuidado de garantir nesta compilação conduz-nos à talvez maior e mais emblemática criação de Lucília do Carmo: “Maria Madalena” [1968, com letra de Gabriel de Oliveira sobre uma quadra de Augusto Gil]. Num fado antigo e tradicional, o Mouraria, é inolvidável a impressão que nos causa e, por muitas vezes que se oiça, cada vez se gosta mais. “Tia Dolores” [1968] combina-se bem com a fase da vida em que Lucília do Carmo a cantou. Com a autoridade de mãe, com uma ou outra ruga na voz dos 48 anos, com todo o calor aveludado do seu timbre único, oferece-nos um Linhares Barbosa originalíssimo no tratamento do tema, por ela transformado em êxito. Melhor técnica de gravação, apuro de guitarristas da melhor craveira, “Leio em Teus Olhos” é de 1971: era um dos temas que Maria Teresa de Noronha e Alfredo Marceneiro sempre lhe pediam que cantasse, quando a iam ouvir. A despedida é feita com “Zé Maria” (faixa 20), um fado-marcha, popular, santantonino, de que Lucília do Carmo não foi cultora mas nos deixou como brinde.

Uma palavra para a poética escolhida por esta grande intérprete. À parte algumas letras dedicadas a Lisboa (“Madragoa”, “Sete Colinas”) e a um ou outro fado descritivo (“Naquela Azenha Velhinha”, “Tia Dolores”), Lucília do Carmo cantou principalmente o Amor. Com toda a alma feminina, um amor-drama, contrariado, traído ou impossível, mas sempre intenso. Como em poucos vultos do Fado, o casticismo, a energia austera do seu “estilar” atenuou a fronteira entre fado tradicional e fado-canção. Cultivou os dois, com raro acerto e, sobretudo, com superior bom gosto.» (Daniel Gouveia, Janeiro de 1998, texto inserto no caderno do CD “Lucília do Carmo”, col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1998)
Nota: A citada antologia é hoje muito difícil de encontrar nas lojas de discos, mas há outra editada uma década mais tarde, pela Iplay, com o título “O Melhor de Lucília do Carmo” (a cuja capa pertence a imagem do topo), que tem dez temas em comum com aquela, se bem que em dois casos as gravações sejam diferentes.

(Continua)

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