A Liberdade, a cultura, a democracia e a justiça social são as nossas paixões.
Teria sido erro não incluir a “Rapsódia de Fados” [1958] por excessivo escrúpulo dela conter imperfeições. Falamos do desrespeito pelo compasso patente no duplo remate do fado Sem Pernas e na entrada para o Mouraria, de resto soberbamente disfarçado pelos guitarristas. São faltas desculpáveis pelo arrebatamento da interpretação, em que o fadista muitas vezes não espera pelos guitarristas e deixa escapar os versos ou os prolonga um pouco mais porque a alma assim lho pede. Uma “biografia” é isso mesmo, o retrato tão fiel quanto possível de uma carreira. E esta rapsódia é, isso sim, uma portentosa manifestação do talento de Lucília do Carmo, a merecer análise mais detalhada. Para começar, é uma peça muito difícil, pois são vários fados num só, muito diferentes uns dos outros, havendo até mudanças de tom entre eles. A concentração para produzi-los tem de ser enorme e Lucília do Carmo consegue tratá-los, um por um, de uma forma superior. A letra muito castiça de Linhares Barbosa ajuda a identificá-los, pois menciona quase todos. Em contraste com o “triste Fado Menor” de abertura, o arranque vibrante e pleno de garra daquele “Guitarra toca o Corrido” é, só por si, um paradigma. Opõe-se-lhe a suavidade com que é abordado o Dois Tons. E que dizer do “Devagar, guitarra amiga…” que inicia o Sem Pernas? O Mouraria, arrastado como compete, é a prova de que se canta diferentemente do Corrido e não é só o desenho melódico da guitarra (aqui a fazer um Mouraria Antigo) que lhe determina a casta.