AO REDOR DO LAROUCO – 7 – por Rui Rosado Vieira

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A TIA MANATA

A população da aldeia, que ainda hoje não dispõe de qualquer serviço de saúde, encontrava, há décadas atrás, pela ausência de estradas e transporte automóvel, imensas dificuldades em recorrer à consulta de médico diplomado para tratar das suas maleitas. Desse modo, na quase generalidade dos casos, sempre que as doenças surgiam, o recurso às benzeduras, às ervas medicinais ou à imaginação, era a prática mais utilizada.

Tia Manata tinha nove filhos, dos quais um nasceu com certa deficiência que o impedia de manter a cabeça na vertical. Defeito que com o decorrer do tempo mostrava agravar-se. Acontecera que, aquela parte do corpo, se inclinara tanto que já quase se juntava à espádua esquerda.

A mãe do jovem, que com frequência lhe gritava para que endireitasse a cabeça, via, com preocupação, que a doença piorava. Mulher decidida, resolveu intervir. Pensou, pensou, e concluiu que tinha que fazer algo para obrigar o filho a deixar de apoiar a cabeça no ombro.

Sem mais aquelas, procurou no chão de um dos muitos castanheiros das redondezas, um dos ouriços mais vetusto e eriçado, que levou para casa. De seguida cozeu-o, cuidadosamente, com linha forte, à gola do blusão de flanela que habitualmente o filho usava.

Terminada a operação quis saber o resultado do seu trabalho. Mal acabara de lhe vestir aquela peça de vestuário, aconteceu o que se esperava. A criança, ao deixar pender a cabeça sobre a espádua, sentiu-se incomodada pela forte dor provocado pelos picos do ouriço que lhe penetravam o pescoço. Para evitar o sofrimento o jovem esforçava-se por erguer a cabeça, tentando mantê-la, a todo o custo, afastada do ombro.

Tia Manata sentia-se imensamente satisfeita, tendo em conta que, pelo que acabara de observar, a sua engenhosa solução iria resultar.

O pior estava por vir. Nos dias seguintes, no caminho para a escola, no recreio e no regresso a casa, o rapaz era perseguido pelos colegas que esperavam, divertidos, o momento em que por distracção ou falta de força, deixava tombar a cabeça, espetando na pele os picos do ouriço do castanheiro.

A capacidade inventiva de Tia Manata foi recompensada. Não obstante a zombaria de que fora alvo, semanas depois, o defeito congénito do filho encontrava-se, em grande parte, corrigido.

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