INTRODUÇÃO POR JÚLIO MARQUES MOTA AO TEXTO DE HERIBERTO ARAÚJO / JUAN PABLO CARDENAL, “O LADO SELVAGEM DO ÊXITO CHINÊS”

Introdução de Júlio Marques Mota ao texto de Heriberto Araújo / Juan Pablo Cardenal

Editamos hoje um texto excepcional. A sua publicação em forma com a lei, deve-se a um conjunto de boas vontades, que achamos de obrigação aqui citar. Em primeiro lugar, o professor Julián Pavón, Director de CEPADE, Fundación General de la Universidad Politécnica de Madrid que se interessou pela nossa vontade em editar o texto na língua de Camões, o jornalista Heriberto Araujo que solicitou autorização ao El País, a Carlos Yarnoz Garayoa, do  Jornal El País e ao seu departamento. A todos os nossos agradecimentos.

Relativamente ao texto abaixo apresentado, mais uma vez se mostra e com que veemência o que são os mercados desregulados, mais uma vez se vislumbra o que será desta Europa abandonada, sob nossa responsabilidade colectiva, às aleatoriedades dos mercados e para não dizer à ganância que nestes mercados impera. Mais uma vez se levanta aqui a questão da OMC, dos fluxos de comércio internacional que estão na base da crise da economia real que antecede a crise dita financeira, e a cidade de Prato, capital da moda do pronto a vestir, é disso um bom exemplo, exemplo da escravatura e das máfias organizadas a viverem dos fluxos migratórios e dos fluxos de mercadorias vindos da China e que não pagam impostos. E a indicar que um ponto de retorno é aqui e agora já impossível. Veja-se por exemplo, Espanha – e o artigo descreve a situação muitíssimo bem – veja-se Portugal, com o pequeno comércio ou a desaparecer ou a ser substituído por comércio chinês. Esquecemos que por cada loja destas que se abate e é substituída por uma empresa chinesa, é também a produção nacional que se reduz depois. Por enquanto é verdade apenas no têxtil,  brevemente vê-lo-emos no calçado igualmente. O calçado, perguntará um qualquer viajante desta nau. Sim, olhem para as estatísticas de calçado exportado pela Holanda onde não se produz nenhum sapato e tirem as vossas conclusões, olhem para as exportações chinesas e pensem duas vezes. Esperemos pela demora, a menos que criemos as condições salariais semelhantes às dos chineses e pelos vistos é o que a Europa, via Bruxelas,  e os governos nacionais dos países ditos periféricos estão a querer fazer. E assim se calça já a Princesa Letícia a preços de quase funcionária pública de Portugal, assim se calçam sapatos de altas marcas a 400 euros na Europa que custarão à saída de Portugal apenas 60! E de sapatos também nos fala este texto publicado por El País. Quanto ao rolar de bicicleta pela vias normais até quando muitas delas serão construídas em Águeda e em Vila Nova de Gaia? Até quando irá vigorar o regime de excepção  que onera em quase 50% as bicicletas importadas da China? Ou dito de outra maneira, quando é que os peritos europeus poderão aprovar regulamentos de mão levantada e sem medo que colidam com os interesses chineses? Uma pergunta para a qual gostava de saber a resposta. Começam-se a sentir as razões da desindustrialização desacelerada de grandes partes deste continente, mas isto é um outro assunto.

Estas lições devem ser tiradas, mas os filhos da mãe que nos governam aqui, em Madrid, em Roma, em Bruxelas em Berlim, continuam impunes na sua marcha para a destruição deste continente a ser dado, quando a fruta estiver madura, ao Império do Meio,  a ser dado pela pressão externa, a de Pequim que pode mesmo vir por portas travessas como as do FMI onde há-de ganhar posição dominante, a ser dado pela pressão interna, as máfias organizadas à escala europeia, a ser dada pela desagregação da economia, a política da UEM no espaço global, onde os Estados-membros são obrigados a ser mais concorrentes entre si do que com o exterior. A Europa tem de perceber o que Paul Samuelson percebeu já  muito tarde, no final da sua vida. Há momentos na história  em que se tem de  decidir entre preços mais baixos ou mais empregos e com salários condignos.   E a escolha só tem um sentido possível, a de mais emprego, mas a Europa escolhe a via dos preços mais baixos. Veja-se a Bretanha em França e a fileira porcina na Alemanha, veja-se a directiva de trabalho destacado, veja-se o projecto de Las Vegas Sands Corp. planeado para Madrid, a criar nesta cidade o maior casino e o maior bordel do mundo, veja-se a Espanha a ter que alterar as suas leis do trabalho e da Fiscalização financeira para corresponder às exigências dos senhores do jogo e da prostituição! E quem sabe, a pedir aos jogadores chineses que se desloquem de Macau para Madrid. Um outro clima e mais facilidades ainda!

Como se noticiava algures  « e não, na União Europeia, nem todos os trabalhadores podem beneficiar de condições de trabalho dignas”. Com efeito, de acordo com o semanário  alemão  Der Spiegel, baseando-se num  relatório do  Comité Europeu de CRIM apresentado agora no Parlamento, cerca de 880 000 trabalhadores viveriam  uma situação perto de escravidão na União Europeia. Nada mais a dizer.

E um jornal humorista comentava assim a notícia com um cartoon:

elpaís - I

que tinha a seguinte legenda: a Europa terá que  escolher entre a Europa do  crime organizado e a Europa dos cidadãos.

Ao ler este artigo do El País percebi o que não tinha percebido numa crónica de Faro do ano passado quando vi as mulheres e os homens de múltiplos tons, cores raças, a saírem das estufas algarvias. Mulheres chinesas, aqui? Como? O presente artigo esclarece-me. Mas mais ainda: esclarece-nos de que muitas das reservas cambiais da China e que lhe irão permitir ser os senhores do Mundo derivam de fugas aos nossos impostos, derivam pois da ausência de aparelhos fiscais condignos e de resto quase condenados a desaparecer quando os homens da Judiciária ganham a 1 euro e cinquenta centavos a hora extraordinária. Ironia, portanto.

Coimbra, 7 de Novembro de 2013

Júlio Marques Mota

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Nota de A Viagem dos Argonautas

Amanhã começaremos a publicar a tradução portuguesa de O Lado Selvagem do Êxito Chinês, o trabalho de Heriberto Araújo e Juan Pablo Cardenal, já publicado em El País, que gentilmente nos deu autorização para esta tradução. Aos autores e ao jornal, o nosso muito obrigado.

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