Franz é professor de inglês, co-autor de manuais usados no ensino secundário, também estudou um pouco de francês, não ao ponto de poder conversar, vamos portanto comunicando em inglês enquanto – lado a lado – lavamos calças, cuecas e camisolas. Com algumas pessoas, Emma, Angelika, por exemplo mas não só, é possível ter conversas vastas, variadas, aprofundadas mesmo sem falar uma língua comum, com outras em contrapartida o tempo, a vontade, a circunstância e um bom dicionário não bastam para nos defenderem da trivialidade. Franz parece pertencer à segunda categoria. Tem olhos azuis, restos de cabelo louro, uma pele bronzeada – e nada para contar. Nem para ouvir: o humor, a ironia, o picaresco deslizam por ele como a água nas penas do pato. (Raro é a lavagem à mão constituir uma festa, porém aqui o diálogo mais lhe sublinha a duração. Há quantas horas estou a esfregar algodões?)
Passo à cozinha. No Porrinho não há frigorífico, a loiça continua escassa, um tacho de alumínio, dois pratos, dois garfos, duas colheres… Cumpre cozinhar, comer, lavar a loiça e de imediato passá-la aos que seguem na bicha. Acabo com efeito de jantar quando chegam outros peregrinos: dois alemães, dois canadianos. Estes terão pouco mais de trinta anos, ele fala francês e é piloto de helicóptero, ela é fotojornalista e só fala inglês; são vegetarianos: improvisam um prato com grão e legumes. Os alemães andam pelos cinquenta e cinco anos. Índice de vistas curtas e orgulho germânico, aludem em tom de troça aos polacos – parece-lhes que eles rosnam quando falam – através dos quais todavia descobriram este vinho a um euro e quarenta que, muito generosos, muito patriarcais, agora oferecem a toda a gente. Primeiro agradeço, não, obrigada, os alemães insistem: acabo por provar. Os canadianos, pouco familiarizados com vinho, buscam aromas e sabores que não existem, os agrumes, os torrados, as flores alvas, como se de Veuve Clicquot se tratasse; tento manter-me imperturbável nesta cena. Trocamos peripécias do caminho quando chega a última peregrina: a escorrer água. Terá passado por debaixo dum Canadair? Baixa, magra, cabelo preto, olhos azuis, cinquenta anos, aparência elegante e original. É alemã, chama-se Mika e aceita meio copo de vinho.