Nota prévia:
Para ouvir os temas de Lucília do Carmo, há que aceder à página
http://nossaradio.blogspot.pt/2013/11/celebrando-lucilia-do-carmo.html
e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.
Lucília do Carmo faleceu a 19 de Novembro de 1998. Oportunidade para o nosso blogue a homenagear apresentando uma mão-cheia dos mais belos espécimes do seu repertório.
Antes Nada Saber
Letra e música: Júlio de Sousa
Intérprete: Lucília do Carmo* (in LP “Lucília do Carmo”,
Trova, 1978, reed. Fatum/UPAV, 1992, Universal, 2003)
[instrumental]
Senhor, perdoai, perdoai!…
Eu não sabia
Que a vida não era somente
O que eu queria
Crianças tão lindas chorando
E homens armados rezando
Pelos seus irmãos de crenças iguais, magoadas
E mães que embalavam de amor os filhos mortos
E flores nos jardins da cidade, pisadas
E jovens que queriam cantar
A velhice inconsciente que ria
Senhor, perdoai meu desabafar
Eu não sabia…
Eu não sabia, eu não pensava
Que a vida estava onde ela estava
A minha dor não existia
Tudo era belo e me sorria
Deixei de vê-la e tudo vi…
Antes nada saber do que aprendi
[instrumental]
Deixei de vê-la e tudo vi…
Antes nada saber do que aprendi
* António Chainho – 1.ª e 2.ª guitarras portuguesas
Martinho d’Assunção – viola
José Maria Nóbrega – viola baixo
Técnico de som – José Manuel Fortes
Mistura – Luís Alcobia
Tudo Isto É Fado
Letra: Aníbal Nazaré
Música: Fernando Carvalho
Intérprete: Lucília do Carmo* (in LP “Recordações”, Decca/VC,
1972; 2LP/CD “O Melhor de Lucília do Carmo”, EMI-VC, 1990; CD “O
Melhor de Lucília do Carmo”, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
[instrumental]
Perguntaste-me outro dia
Se eu sabia o que era o fado;
Eu disse que não sabia,
Tu ficaste admirado;
Sem saber o que dizia
Eu menti naquela hora
E disse que não sabia,
Mas vou-te dizer agora:
Almas vencidas
Noites perdidas
Sombras bizarras
Na Mouraria
Cantam rufias
Choram guitarras
Amor, ciúme
Cinzas e lume
Dor e pecado
Tudo isto existe
Tudo isto é triste
Tudo isto é fado.
Se queres ser o meu senhor
E teres-me sempre a teu lado
Não me fales só de amor:
Fala-me também do fado;
É canção que é meu castigo,
Só nasceu p’ra me perder:
O fado é tudo o que eu digo
Mais o que eu não sei dizer.
Almas vencidas
Noites perdidas
Sombras bizarras
Na Mouraria
Cantam rufias
Choram guitarras
Amor, ciúme
Cinzas e lume
Dor e pecado
Tudo isto existe
Tudo isto é triste
Tudo isto é fado.
[instrumental]
Amor, ciúme
Cinzas e lume
Dor e pecado
Tudo isto existe
Tudo isto é triste
Tudo isto é fado.
* Fernando Freitas e António Chainho – guitarras portuguesas
José Maria Nóbrega e Orlando Silva – violas
Raul Silva – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Rapsódia de Fados
Letra: João Linhares Barbosa
Música: Popular (Fado Menor, Fado Corrido, Fado Dois Tons, Fado sem
Pernas e Fado Mouraria)
Intérprete: Lucília do Carmo* (in EP “Olhos Garotos”, Decca/VC,
1958; CD “Lucília do Carmo”, col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1998)
O triste Fado Menor
Fez-me soltar mil queixumes:
Queixumes do meu amor
Que me mata de ciúmes.
O meu amor desprezou-me,
Trocou-me a outra mulher;
Mas o que mais me consome
É o que ele anda a dizer.
Guitarra, toca o Corrido!
Quero deixar de ser triste,
Fazer de conta que ele
Já para mim não existe.
Dá mais valor aos teus dons!
Deixa-me cantar contigo
No Corrido ou no Dois Tons
Já que ele correu comigo!
Devagar, guitarra amiga,
Que o meu peito já cansou!
Esqueceu-me uma cantiga
Que o meu amor me ensinou.
Mudaste p’ra o Mouraria,
Triste fado da Severa;
Não posso ter alegria,
Meu coração ainda o espera.
* Francisco Carvalhinho – guitarra portuguesa
Martinho d’Assunção – viola
Gravado no Teatro Taborda, Costa do Castelo (Lisboa), em Junho de 1958
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Desgarrada
Letra: João Linhares Barbosa e Guilherme Pereira Rosa
Música: Popular (Fado Menor)
Intérpretes: Lucília do Carmo* e Carlos do Carmo (in EP “Lucília do
Carmo” (“Sete Colinas”), Philips, 1966; LP “Fado Lisboa: An
Evening at the ‘Faia'”, Philips, 1966, reed. Universal, 2003, 2013)
[instrumental]
A guitarra é toda oca,
Roubaram-lhe o coração;
Por isso anda como louca
A chorar de mão em mão.
Toda a folha que foi verde
Se arrasta nos vendavais:
O vento a leva e a perde,
Ao tronco não volta mais.
Aos bocadinhos sofrendo
Ponho de parte as tristezas,
E assim cá vou vivendo
Nesta vida de incertezas.
Às vezes é um disfarce
O ódio que a gente sente:
É a saudade a lembrar-se
De quem se esquece da gente.
O fado tenho cantado
Por esta Lisboa à toa:
Não há Lisboa sem fado,
Não há fado sem Lisboa.
* Jaime Santos e Ilídio dos Santos – guitarras portuguesas
Orlando Silva – viola
José Maria Nóbrega – viola baixo
Técnico de som – Henk Jansen
Antigamente
Letra: Frederico de Brito
Música: Júlio Proença (Fado Modesto)
Intérprete: Lucília do Carmo* (in LP “Recordações”, Decca/VC,
1972; 2LP/CD “O Melhor de Lucília do Carmo”, EMI-VC, 1990; CD
“Fado em Tom Maior”, EMI-VC, 1995; CD “O Melhor de Lucília do
Carmo”, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
[instrumental]
Antigamente era couto a Mouraria
Daquela gente condenada à revelia;
O fado ameno, canção das mais portuguesas,
Era o veneno p’ra lhes matar as tristezas.
A Mouraria, mãe do fado doutras eras,
Que foi ninho de Severas,
Que foi bairro turbulento,
Perdeu agora todo o aspecto de galdéria:
Está mais limpa, está mais séria,
Mais fadista cem por cento.
Adeus tipóias com pilecas e guizeiras,
Adeus rambóias e cafés de camareiras;
Nada mais resta da moirama que deu brado
Do que a funesta lembrança dum passado.
A Mouraria, que perdeu em tempos idos
A nobreza dos sentidos
E o poder de uma virtude,
Salvou ainda toda a graça que ela tinha
Agarrada à capelinha
Da Senhora da Saúde.
[instrumental]
Salvou ainda toda a graça que ela tinha
Agarrada à capelinha
Da Senhora da Saúde.
* Fernando Freitas e António Chainho – guitarras portuguesas
José Maria Nóbrega e Orlando Silva – violas
Raul Silva – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Madragoa
Letra: José Galhardo
Música: Raul Ferrão
Intérprete: Lucília do Carmo* (in EP “Lucília do Carmo”
(“Sete Colinas”), Philips, 1966; LP “Fado Lisboa: An Evening at
the ‘Faia'”, Philips, 1966, reed. Universal, 2003, 2013; CD “Lucília
do Carmo”, col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1998)
Ó Madragoa
Das Bernardas e das Trinas
Dos padeiros, das varinas
Da tradição
És a Lisboa
Que nos fala doutra idade
Doutros tempos da cidade
Que já lá vão
Bairro cercado
Por igrejas e conventos
Com tão santos monumentos
Na vizinhança
Meu bairro amado
Vem mostrar que é bem verdade
Que entre a fé e a caridade
Pôs Deus a esperança
Ó Madragoa
Que és a mãe da minha mãe
Ó gente boa
Do meu bairro, escutem bem
És a Lisboa
Do progresso e da vaidade
É ali na Madragoa
Que mora a saudade
És Madragoa
Mais cristã que a Mouraria
Mais alegre que a Alegria
E até mais bela
Doa a quem doa
Não há bairro com mais raça
Com mais graça até que a Graça
Mais luz que a Estrela
Ali viveram
Esses bravos mareantes
Foi ali que os navegantes
Fizeram ninho
Muitos morreram
Mas há um que o povo adora
Esse herói que o povo chora
Gago Coutinho
Ó Madragoa
Que és a mãe da minha mãe
Ó gente boa
Do meu bairro, escutem bem
És a Lisboa
Do progresso e da vaidade
É ali na Madragoa
Que mora a saudade
[instrumental]
És a Lisboa
Do progresso e da vaidade
É ali na Madragoa
Que mora a saudade.
* Jaime Santos e Ilídio dos Santos – guitarras portuguesas
Orlando Silva – viola
José Maria Nóbrega – viola baixo
Técnico de som – Henk Jansen
(Continua)
