A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 43 – por Sérgio Madeira

imagem163[1]Capítulo quarenta e três

 

Manuel falou sem ser interrompido. Nada pudera ver, pois fora amarrado raivosamente por Nachawi sob o olhar di vertido do inspector Câncio. Ouvira os primeiros tiros, as rajadas como que hesitantes das G-3, e depois os disparos ininterruptos porque, esgotados os carregadores, enquanto os substituíam, outras continuavam a disparar. Gritos pavorosos… gritos de crianças… bebés que choravam e de repente se calavam.

Cecília pousou os talheres. As lágrimas corriam-lhe pelas faces. Manuel interrompeu a narrativa:

– Não conto mais nada… Peço desculpa, mas avisei…

– Continue, por favor – pediu Cecília voltou a pegar no garfo e na faca. Manuel olhou o relógio:

– Tenho de me apressar – a primeira actuação no hotel é às dez da noite… – e passou directamente ao momento em que o tenente  Lopes e mais dois soldados o tinham ido desamarrar. Quando saiu da cubata e, cambaleante, foi conduzido à presença do capitão Sousa e do inspector Câncio, dizer que o cenário era  dantesco, seria ficar aquém da realidade. Assistiu com alguma indiferença à discussão entre os oficiais e o inspector da polícia política, percebeu que era a sua vida que estava a ser jogada, mas estava demasiado confuso para sentir medo. Dormi numa cela do quartel, pois os oficiais acharam que era o local mais seguro. No dia seguinte, estava com uma temperatura elevada e quase inconsciente: Levaram-me ao hospital militar… Olhou de novo o relógio – O Alfredo pode continuar a partir daqui.

Despediu-se e saiu. Ficaram em silêncio. A empregada veio ver se precisavam de alguma coisa e ao deparar com a comida quase intacta, perguntou:

– Não está bom? – Garantiram-lhe que sim e Alfredo foi à travessa buscar uma posta de bacalhau;

– Está muito bom. Nós é que nos distraímos a conversar..

António e Cecília assentiram. E comeram sem falar, até que Alfredo, disse:

– Na enfermaria onde o pusemos ninguém conseguia dormir, pois Manuel tinha pesadelos em que gritava como um possesso. Foi então que o alferes Norberto Alves me procurou.

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