A FALSA RETOMA DA ECONOMIA NA EUROPA E O DESEMPREGO JOVEM, de JOHN WEEKS

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

Nota introdutória

Falou em retoma económica? Estará a brincar?

É o título que gostaríamos de colocar nesta peça, mas respeitemos o do original, porque o tema é mesmo muito a sério, muito dramático. Um texto fortíssimo contra o discurso dominante, mesmo que apresente no final alguns sub-entendidos que poderiam ser mais claros. É evidente que a Europa não tem uma política de emprego sustentado e aqui voltamos a um texto nosso a propósito das mentiras de Durão Barroso e dos seus subalternos, é evidente que muitos dos desempregados jovens de hoje nunca mais terão emprego decente na vida, vida esta que se vai encarregar de os minar, mental e fisicamente, e de os transformar em puramente descartáveis. E o mercado dirá: nada a fazer. E com que facilidade isto será aceite por muita gente.

Veja-se o que aconteceu ontem com os professores e o seu ministro de tutela, ministro tão sinistro ou mesmo bem mais sinistro do que qualquer ministro da Educação do tempo de Salazar, além de que bem mais incompetente. Veja-se o desprezo com que toda a questão foi por ele tratada, como se os seus pais o não tivessem ensinado a respeitar os outros. Veja-se como em vez de tratar a questão como humilhante e recusá-la pura e simplesmente um sindicato aceita que a prova dita de avaliação, mas verdadeiramente de eliminação de pessoal docente,  seja aplicada aos mais novos, aos mais jovens. Validam-na, portanto. Mas para validar o quê? A política assassina do incompetente e sádico ministro, cuja função, para além da destruição do ensino público, tem como  finalidade tornar muita gente descartável, pura e simplesmente isso. E apoia-se numa prova dita de competência, que mostra essa sim a incompetência em termos quer puramente técnicos quer quanto a formação humanista, inexistente, de quem a imaginou, de quem a concebeu, de quem a aprova. Tudo isto a  mostrar os verdadeiros lobos à solta pelo Ministério, como se de uma mata se tratasse. Que sejam então os mais novos a serem os descartáveis, assume-se, e vão sê-lo em nome da competência que irão dizer que esses jovens “não têm” e nunca dirão que eles são considerados incompetentes em nome da falta de princípios do ministro e de todos os que assinaram o acordo e que à competência e à seriedade viraram desde há muito as suas costas. Vão ser descartáveis, vão sê-lo em nome de um “dado natural” que o sistema fabricou e injectou nas nossas cabeças, o de que todos nós devemos ser avaliados, de modo a satisfazer apenas os critérios do avaliador e das suas finalidades. Sendo certo de que por avaliação  entendemos responsabilização pelo que tem sido  feito,   partindo dessa base, a da responsabilização, a avaliação nunca não pode ser a busca até ao limite de provocar a penalização e a humilhação de quem trabalha, apenas isso. Por esta razão, não  podemos nunca aceitar que a avaliação consista numa prova de resistência à humilhação, ao sofrimento. Apenas isso, igualmente.

Com esta posição não queremos ignorar  que há enormes problemas no ensino, a todos os níveis, desde o primário ao superior, passando pelo secundário,  e que precisam de urgente correcção. Temos vindo a afirmá-lo sucessivamente. Mas se os problemas eram graves, gravíssimos, antes da tomada de posse deste  Nero, não de Roma mas das gentes que poderão construir o futuro do país, esses problemas ficaram bem piores com as suas “reformas”. A destruição que têm levado a cabo é tal dimensão e profundidade,  que irá exigir trabalho para  mais de uma década a corrigi-los, depois da queda destes vândalos da Democracia. Disso temos a certeza, e não é a expulsar gente do ensino que alguma coisa se corrige.

E tudo isto está implícito nos gráficos abaixo, é saber pensar quando se olha para eles, de pensar na realidade que lhes está subjacente, daí uma certa ironia do autor da peça quando nos questiona:

“Para todos, mas excepto para os verdadeiros discípulos da doutrina de austeridade, estes dados desafiam a crença de que, no século XXI, os dirigentes da zona euro poderiam dormir à noite descansadamente com bem mais de metade dos jovens num país membro a permanecer inactiva e sem perspectivas.” Dormirá Nuno Crato descansadamente com todo o mal que anda a criar? Creio que sim, pois o contrário pressupõe o mínimo de consciência que a meu ver não tem. Lembram-se do roubo que este Ministro fez às crianças do nosso país, aos seus prémios pecuniários já ganhos,  lembram-se da forma desajeitada como se portou como ladrão face a essas crianças PREMIADAS,  naturalmente portadoras de esperança ? Lembram-se pois.

Júlio Marques Mota

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A falsa retoma da economia na Europa e o desemprego jovem

europe_pol_1993

 Parte I

John Weeks

Social Europe Journal

http://www.social-europe.eu/2013/12/youth-unemployment-faux-recovery/

De repente, os media fazem um enorme zumbido com a perspectiva de se ter iniciado uma retoma da economia europeia. Após quatro anos sombrios de sucessivas reduções no PIB, de aumento do desemprego e da queda dos salários. Isto a querer dizer que a austeridade funcionou e que a partir de agora podemos colher os benefícios reais, ouvimos dizer que a Europa deixou a crise para trás, ao virar da esquina

Antes de ficarmos todos também muito felizes, vale a pena recordar o conselho expresso em Gálatas 6:7, “o que um homem semeia, é também o que irá colher ” (nono livro do Novo Testamento, que também se aplica às mulheres, presumo).

Os três gráficos abaixo mostram as taxas de crescimento por trimestre mas anualizadas para os sete mais frequentemente discutidos países no contexto da crise da zona euro. As estatísticas começam no início de 2010 e concluem-se com os dados do terceiro trimestre de 2013, com excepção da Irlanda pois não há nenhuma informação para o último trimestre aqui considerado .

Primeiro, vejamos então a Alemanha, o peso pesado da zona euro. A taxa de crescimento diminuiu continuamente durante os oito trimestres consecutivos antes de recuperar com uma variação positiva de metade de um por cento, seguida depois de uma variação positiva de 0,6 por cento no trimestre seguinte. Se o leitor chama a isto retoma, pode então pensar que um por cento de crescimento faz com que uma economia sobreaqueça. A crença de que dois trimestres de muito fraco crescimento assinalam um crescimento sustentado representa então o triunfo da esperança sobre a experiência. O aspecto interessante de crescimento francês é estar a imitar e de muito perto o crescimento da Alemanha, embora a um nível inferior.

Para os outros dois grandes países da zona euro, Itália e Espanha, a recuperação está muito, mas muito mesmo, nos olhos de quem a vê. As taxas de crescimento permanecem negativas, são de menos de 2% para a Itália e de menos de 1.2% para a Espanha. As muito ligeiras reduções das taxas de declínio para os últimos três trimestres continuarão como um verme lento em taxas positivas ou será antes que elas  reflectem a estagnação da economia? Qualquer resposta que o leitor dê, isto não é “recuperação”.

Com a história para os três mais pequenos países é ainda menos provável que se possa invocar o optimismo numa mente racional. Cada um deles sofre ainda de um prolongado processo contraccionista, com a Grécia ( já em 15 trimestres consecutivos), Portugal (onze) e a Irlanda (4). A desaceleração da taxa de queda [é disso que se trata] , especialmente para a Grécia e para Portugal, pode ser um bom sinal, ou simplesmente indica que estas economias estão no fundo do poço.

Alguns chamam a isto retoma :

Parte 1: Alemanha e França (taxas de crescimento trimestrais anualizadas, 2010.1-2013.3 do primeiro trimestre de 2011 ao terceiro trimestre de 2013)

john weeks - I

Source: OECD and national statistical web sites
(continua)

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