EDITORIAL – O futuro dos jornais e o presente da democracia

Imagem2Quando apareceu há 40 anos, o Expresso foi um jornal de referência. Com uma linha editorial prudente, explorou o simulacro de abertura com que Marcelo Caetano maquilhou a ditadura, guiando-se politicamente pelos princípios da ala liberal do partido único e tendo como colaboradores jornalistas e cronistas de grande qualidade, muitos deles afectos às oposições. Comemorando o 40º aniversário do semanário, realizou-se anteontem  no Porto um debate centrado nas questões que se colocam ao jornalismo na era em que as plataformas digitais surgem como ameaça aos periódicos impressos sobre papel. Entre outros, participaram Rui Rio, José Pacheco Pereira, Miguel  Sousa Tavares e o ministro-adjunto e do Desenvolvimento Regional Poiares Maduro.

Azeredo Lopes, professor da Faculdade de Direito da Católica no Porto, levantou a questão se «as redes sociais e os blogues estão a matar o jornalismo?»  Miguel Sousa Tavares dramatizou «no dia em que os jornais acabarem acaba o jornalismo». Reconhecendo a  importância das plataformas digitais, profetizou que se os jornais acabarem «isto transforma-se numa selva».

Foi Rui Rio quem põs o dedo na ferida ao perguntar se o jornalismo actual serve a democracia? E respondeu à própria pergunta: «Não cumpre o seu papel da forma como devia cumprir e contribui para a degradação do sistema político»[…]há um claro défice de qualidade e de rigor na forma como as notícias são feitas […] títulos enganadores para vender e títulos enganadores para ser parcial, para beneficiar alguém ou prejudicar alguém». A tanta lucidez não é estranha «a “parcialidade fantástica” do Jornal de Notícias nas últimas eleições autárquicas no Porto. […] atropelos aos direitos básicos dos cidadãos […] é tão inadmissível fazer isso a Leonor Beleza como a José Sócrates», pois [uma coisa é dar as notícias outra coisa é fazer perseguição às pessoas e fazer o julgamento na praça pública». Por seu turno, Pacheco Pereira salientou que o jornalismo político «assenta em fontes anónimas, na ausência de documentos e na intriga[…] a maior parte da informação política transforma-se em recados». Poiares Maduro, encerrou o debate considerando que «É fundamental o papel da comunicação social, enquanto editores da esfera pública» […] o grande desafio comum que o jornalismo e a democracia têm hoje é o de contribuir para um melhor debate público». Uma festa de aniversário que mais pareceu um velório.

Lembramos a MIguel Sousa Tavares que, obviamente, quando acabarem os jornais, acabam literalmente os jornalistas. O que não impediria que outros profissionais da comunicação assumissem o papel de informar. O problema não é corporativo, maas sim ético. O jornalismo não será hoje uma selva, mas é um presídio, onde os reclusos fazem recados (como disse Pacheco Pereira). E quem se recusar, bem pode escolher outra profissão.

Antes a selva.

 

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