POESIA AO AMANHECER – 336 – por Manuel Simões

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     NOÉMIA DE SOUSA

        ( 1927 – 2003 )

 

            DEIXA PASSAR O MEU POVO

            (fragmento)

 

            Noite morna de Moçambique

            e sons longínquos de marimbas chegam até mim

            – certos e constantes –

            vindos nem eu sei donde.

            Em mim casa de madeira e zinco,

            abro o rádio e deixo-me embalar…

 

            Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos

            e Robeson e Marian cantam para mim,

            spirituals negros de Harlem,

            «Let my people go»

            – oh deixa passar o meu povo,

            deixa passar o meu povo! –

            dizem.

            E eu abro os olhos e já não posso dormir.

 

            (…)

            E enquanto me vierem de Harlem

            vozes de lamentação

            e meus vultos familiares me visitarem

            em longas noites de insónia,

            não poderei deixar-me embalar pela música fútil

            das valsas de Strauss.

            Escreverei, escreverei,

            com Robeson e Marian gritando comigo:

            «Let my people go»

            OH, DEIXA PASSAR O MEU POVO.

             (de “Resistência Africana”)

 A sua poesia parece reflectir a do antilhano Aimé Césaire. Divulgou a sua obra por jornais de Moçambique, Angola, Portugal e Brasil. Colaborou em “Mensagem”(CEI), “Mensagem” (Luanda), “Notícias do Bloqueio”, “Brado Africano”. Em 2001 a Associação de Escritores de Moçambique publicou-lhe “Sangue Negro”, que reúne a poesia de 1949-1951.

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