A BELEZA DAS PINTURAS DE MARIA KEIL NUM TEXTO DE JOÃO PAULO COTRIM – “ A ÁRVORE QUE DAVA OLHOS” por Clara Castilho

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Clara Castilho fala-nos hoje de um livro de Maria Keil – A Árvore que Dava Olhos:

É um livro delicioso. Saiu em 2010 mas eu andava distraída. Só o comprei quando fui à exposição da Maria Keil, em Cascais. Trouxe vários exemplares para oferecer às várias crianças mais novas da família.

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“Sou apenas uma árvore no fundo do quintal. Quem me impede de virar tudo do avesso e plantar os ramos nas nuvens. Ou fazer com as raízes um céu debaixo da terra?

Uma árvore não ouve nem vê, não fala nem anda, por que raio há-de poder sentir? Uma árvore tem que ficar a ver o dia assar e depois a noite antes de um novo dia vem antes de outra noite. E assim para sempre.

Mesmo as árvores no fundo do quintal não são todas o mesmo. Vive muito em mim, talvez bocas e orelhas, por certo, olhos. Muitos olhos. Sou uma árvore que dá olhos, pois sou. É isso que sou.”

O livro é recomendado pelo Plano Nacional de Leitura, para apoio a projectos relacionados com Natureza/Defesa do Ambiente para os 3º, 4º, 5º e 6 anos de escolaridade.
E é anunciado assim: “Tantas vezes a árvore veio à nossa conversa que a apanhamos para um conto. Esta árvore contém, como todas, muitas histórias por desvendar.
Para dormir e para acordar em todas as idades. Um livro belíssimo.”

Carlos Nogueira, na Casa da leitura escreve: “A procura de uma cosmogonia pura na literatura dirigida aos mais novos  contempla nos nossos dias tanto a salvação de cada um na Natureza como a salvação literal do planeta ou da natureza do planeta que é a nossa casa.[…]  Raridade da árvore, raridade do texto: o lirismo mais puro e lúdico, consubstancial  desde o início à voz narrativa («Tenho raízes no coração da terra e ramos que fazem  cócegas nas  nuvens»), concilia-se com a ironia mais séria, o que faz deste discurso de  descoberta e criação um manifesto de boa-fé e verdade. Um manifesto que não dissimula  a ironia e o sarcasmo, mas que também não esconde a sua vocação lírica, reconhecendo-se nestes dois modos de expressão, de espírito e pensamento forças vitais do enunciador  e do texto, unidos no mesmo esforço de compreensão e transformação dinâmica do  mundo.

[…] Mas a raridade desta árvore, que, perto do final, se define, de novo ironicamente,  declarando «Sou apenas uma árvore no fundo do quintal», prende-se ainda com o uso de uma ironia que é já indignação e sarcasmo irredutíveis: «Uma árvore não ouve nem vê,não fala nem anda, por que raio há-de poder sentir? Uma árvore tem que ficar a ver o dia passar e depois a noite antes de um novo dia que vem antes de outra noite. E assim para sempre.» A descoberta do valor por excelência da árvore deve-se a uma equação que é sugerida como lição – inteligência aberta e perscrutante / ironia indignada e corrosiva –, cuja amplitude alegórica e intencionalidade didáctica estão patentes nos dois últimos andamentos: «Mesmo as árvores no fundo do quintal não são todas o mesmo. Vive muito em mim, talvez bocas e orelhas; por certo, olhos. Muitos olhos. Sou uma árvore que dá olhos, pois sou. É isso o que sou.»

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Pedro Moura, no blog – http://lerbd.blogspot.pt/ faz uma interessante análise do livro.

[…] “O pressuposto […]/é de que) a criança não pensa como um adulto. O que é quase dizer: a criança não pensa. Esta é (um)a grande falácia. O que se passa é que a criança não pensa como um adulto, mas o que isso quer dizer é que ainda não erigiu as dimensões mais socializadas da delimitação das associações, analogias, imagens, correspondências, possibilidades, dúvidas que fazem crescer a água na boca. […]
É raro surgirem contos que de facto despoletem esse espaço positivo, o de “podia ser assim”, como disse, no meio do rastro negativo do “deve ser assim”. São raros, mas não inexistentes. Os livros de Umberto Eco e Eugénio Carmi abriram um, o de Werner Holzwarth e Wolf Erlbruch abriu outro, António Torrado uma e outra vez (A Cadeira que sabe Música continua a ser um livro que deveria lançar a sua sombra sobre os demais), António Pocinho entreabriu-o, e João Paulo Cotrim consegue tantos outros.  E como? Ou porquê? Ou de que modo? Esquecendo as crianças. Retirando-as do alvo.

Quer dizer, afastando de um modo decisivo a noção de criança enquanto pequeno cidadão em formação que precisa da orientação daqueles que já sabem (mas se são os que já sabem quem colocou o mundo na situação que está, que direito têm de ensinar o contrário?). Ou a noção de criança enquanto pequena criatura que apenas é feita de inocência e que precisa de ser protegida do mundo terrível à sua volta e acalentada para um espaço que a deverá apequenar tanto quanto possível durante o maior tempo possível (como as bonsai, eternamente pequena, eternamente um objecto de beleza, mas também de tortura sobre o crescimento e impedimento da reprodução) É preciso que o conto seja literário na maior das suas condições: a de abrir um espaço de diálogo. E as crianças podem ser um dialogante vivo, inteligente e perspicaz sobre o mundo que os espera um pouco à frente.

A Árvore que dava olhos não tem história, nem moral, nem sequer uma estrutura narrativa que possa ser subjugada a um “tema” ou sequer “ideia”. Porque a ideia do livro (tal como noutros livros “infantis” de Cotrim) está contida a cada passo, é uma construção permanente mas ao mesmo tempo evanescente. A árvore-protagonista oscila entre a explicação do que é (“é assim”, “sou apenas uma árvore…”) e questões do que poderia ser (“posso ser…”, “vou ser…”, “podia”, “queria”, “vou crescer para isso”). Tanto apresenta uma ideia das virtualidades de todas as árvores como o constrangimento real a que elas se subjugam.

Os desenhos de Maria Keil seguem o mesmo percurso, em que arreda para fora do seu espaço a pirotecnia, ou uma noção chã de ilustração, e instaura a presença de uma série de desenhos em que cada pequena variação em torno da árvore corresponde às noções flutuantes nas palavras do conto. O despojamento e a simplicidade não têm necessariamente de passar pelo desassombro pelo mundo, e Maria Keil mostra um dos caminhos pelos quais o assombro se mantém nas imagens simples. Veja-se como as nuvens, o fogo do sol de Verão, os olhos, as cadeiras voadoras, os riscos do “céu inteiro”, como tudo isto fica preso aos ramos da árvore como pedaços de papagaios de papel ou ideias sem fio ficariam acidentalmente presos, despojos exteriores à árvore tornados frutos da mesma árvore. Uma analogia perfeita para o que significa uma “ideia transmitida”!

Sem querer publicidade e favorecer Calendário da Letras, se são daqueles que gostam de oferecer livros no Natal, corram a comprá-lo!

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