POESIA E PROSA – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

Corre o ano de 1953. Tu, Alexandre O’Neill, convidas-me e vou a tua casa. É o segundo andar, lado esquerdo, de um prédio no bairro social do Arco do Cego. Toco à campainha e uma pitosga de uns 30 anos abre a porta. Será a tua irmã. Não, irmã não será, pois tiveste uma zanga com o teu pai e agora vives na casa de um tio materno. Deve ser tua prima. Seja ela quem for, olha para mim muito desconfiada mas lá te chama, esganiçada: Alexandre, Alexandre! Surges ao fundo do corredor, dás uma corridinha, puxas-me pelo braço, levas-me até ao teu quarto.

Uma cama, uma secretária, estantes com livros e um armário de metal, com grandes gavetas a rolarem sobre esferas. Abres uma delas, dezenas de pastas. Retiras seis ou sete e começam a saltar poemas de Maiakovski, Neruda, Aragon, Éluard e a sua catalisadora Liberté, je dis ton nom! Também um desconhecido (pelo menos, para mim) de nome Bertold Brecht. Fico espantado: a poesia organizada como se fosse arquivo comercial? O alemão, o Brecht, é um deslumbramento, cativa-me a sua concisão. Tanto que, uma semana depois, de rajada escreverei seis poemas a la Brecht, um deles de pesar pela morte do camarada Estaline. E tu irás gostar dos meus versos, insistirás para que eu não desista. Insistência vã, estou mais calhado para a prosa…

—– Original Message —–

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