A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 48 – por Sérgio Madeira

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Capítulo quarenta e oito

 

O agora major Gilberto  Alves, promovido, mas colocado numa função burocrática, também não esquecera o massacre de Xuvalu e, embora a promoção tivesse sido uma forma de o neutralizar e de lhe ser censurada a decisão de deixar uma testemunha com vida, lamentava ter permitido que, sob o seu comando, aqueles horrore tivessem acontecido. Lamentava mesmo não ter acedido ao que Guilherme Lopes propusera – a execução sumária dos dois agentes da polícia política. Embora os maiores crimes tivessem sido cometidos pelas tropas indígenas, houve sargentos, furriéis, soldados portugueses que colaboraram, sobretudo nas violações das mulheres.

Na viagem de helicóptero, o alferes Norberto de Sousa, nas poucas vezes que se lhe dirigiu, fê-lo num tom formalmente polido e respeitoso, mas sem esconder o sentimento de repugnância pela pusilanimidade do comandante. Por seu turno, Guilherme Lopes, usava um tom irónico, como se estivesse a falar com um débil mental ou, pior do que isso, com um cobarde.

Não houve um dia em que Gilberto Alves não recordasse as cenas horríveis e não lamentasse não poder refazer o passado. Todos os dias, por diversas vezes, rebobinava o filme da memória e criava desfechos alternativos ao que de facto se passara. A única coisa que minorava o asco que sentia por si mesmo era a consideração em que era tido pelos colegas – de todo aquele inferno, o que passara fora a lenda de um capitão teso que impedira a PIDE/DGS de executar um padre. Nunca contribuiu para alimentar a lenda, Quando o elogiavam, desviava a conversa. Nos dias de maior benevolência para consigo, recordava o momento em que dera ordem para fuzilar os agentes policiais. Fora convincente, pois a sua ira era genuína e ampliada pela humilhação – vira o terror estampado nos rostos dos dois homens e a  aquiescência do inspector para salvar a vida, pois, quer o Lopes quer o Sousa estavam desejosos de acabar com os dois miseráveis agentes.

Quando, já em Agosto de 1974, desceu do Nord-Atlas 2501 no aeroporto de Lourenço Marques, levava esperança de poder rectificar o passado ou, pelo menos, de melhorar a ideia que fazia de si mesmo.

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