EDITORIAL – A OBEDIÊNCIA E O OPORTUNISMO

Imagem2Há dias atrás, partindo de um conceito de oportunismo expendido por Agostinho da Silva, chegámos à conclusão de que “oportunismo” é um impulso de egoísmo e de desonestidade cometido por um farroupilha. O mesmo impulso e desonestidade, quando vindos de uma pessoa altamente colocada, tem a designação de “sentido das oportunidades”. Ou seja, um pequeno empresário que aproveita a crise para despedir assalariados, sem justa causa,  furtando-se à obrigação de pagar a indemnização devida, ou que baixa ordenados, ou que paga miseravelmente, claro que é um oportunista, uma ratazana asquerosa. Quem aproveita a crise para enriquecer – e note-se que o número de ricos aumentou em Portugal – é um empreendedor com «sentido das oportunidades». Um ladrão que cometa um pequeno furto, está em Alcoentre – um ladrão que roube o erário público ou que cubra défices causados por ladrões seus amigos com impostos ilegais, anticonstitucionais, chama-se um «governante». É a esta gente que obedecemos. Porquê?

Um amigo envia-nos uma frase de Howard Zinn (1922-2010), historiador, politólogo,  activista e dramaturgo norte- americano,  autor do livro A People’s History of the United States, que, lançado em 1980, vendeu até agora mais de um milhão de exemplares.  Noutro dos seus livros, Disobedience and Democracy: Nine Falacies on Law and Order (1968), diz: A desobediência civil não é o nosso problema. O nosso problema é a obediência civil. O nosso problema é que pessoas por todo o mundo têm obedecido às ordens de líderes e milhões têm morrido por causa dessa obediência. O nosso problema é que as pessoas são obedientes por todo o mundo face à pobreza, fome, estupidez, guerra e crueldade. O nosso problema é que as pessoas são obedientes enquanto as cadeias se enchem de pequenos ladrões e os grandes ladrões governam o país.  É esse o nosso problema.

Esta frase lapidar obriga-nos a reflectir sobre uma realidade – somos condicionados a obedecer. Os generosos pressupostos – Liberdade, Igualdade, Fraternidade, pilares da Democracia, colidem com atavismos comportamentais herdados da Pré-História – obedecemos, já não ao cavernícola mais robusto fisicamente, que impõe a sua hegemonia a golpes de clava; obedecemos aos que têm um maior «sentido das oportunidades». Na política e na economia, somos reféns de gente sem escrúpulos que, atemorizando-nos com uma parafernália de ornamentos sociais – títulos, dignidades que, do ponto de vista do interesse comum,  nada significam, nos mantêm no redil da obediência. Somos vítimas da nossa estupidez. Ela leva-nos a acreditar que isto, este sistema, é uma democracia. E elegemos representantes a quem obedecemos. Se eles nos representam, era a eles que competia obedecer. E nesta inversão de valores reside o cerne da questão.

É esse o nosso problema.

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