CLARICE LISPECTOR – «é brasileira, e acima de tudo – carioca!» – Excertos de um discurso de Rachel Gutiérrez

 Discurso proferido em 2 de junho de 2006 perante a Assembléia Legislativa.

[…] À pergunta que nos fazem com freqüência, se Clarice é russa, se Clarice é ucraniana, (que não se esqueça que ela chegou com apenas 2 meses em Alagoas e que aprendeu a falar em português! ) responderemos, agora melhor do que nunca : Clarice é brasileira, e acima de tudo – carioca!

Declaração de amor à língua portuguesa – A Descoberta do Mundo, p.100.e

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.

Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm.”. dificuldade ou hermetismo aparente – Davy Bogomoletz na apresentação de A Hora de Clarice Lispector, p. vi :

Alguém perguntou certa vez quase indignado: ‘Mas por que Clarice era tão hermética? Por que se distanciava tanto do leitor ?’ E logo surgiu a resposta: ‘Não, Clarice não se fecha nem se afasta do leitor. Clarice penetra. Olha tão lá dentro da própria alma, que ali descobre também a nossa. E diz o que viu lá. E ela chega tão perto, tão perto, que ou a deixamos entrar por inteiro, ou a mandamos embora. É o leitor quem se afasta, se fecha, quando não suporta tanta proximidade, se não agüenta se ver com tanta clareza !”

2 . simplicidade aparente –p.42 A Descoberta do Mundo. Numa crônica intitulada “A favor do medo”, tudo se passa como se CL tivesse ido buscar num atavismo pessoal e na mulher das cavernas a origem da ligação entre amor e morte: Eros e Tânatos – que perpassa toda a história da literatura ocidental. Ela aborda de forma um tanto jocosa, brincalhona, a perplexidade da mulher diante do homem, que possivelmente o homem também sente diante da mulher, esse medo do outro, desse outro diferente, misterioso.

Vou contar um feliz incidente do qual participei, há alguns anos, na Sorbonne, em Paris. Minha amiga Hélène Cixous, a maior divulgadora de CL na França, estava analisando a crônica “A favor do medo” em uma de suas aulas de sábado – aulas que começam às 9 da manhã e acabam às 2 da tarde.

A crônica é a do dia 11 de novembro de 1967. Ela narra o encontro da própria Clarice com um cavalheiro “civilizado, de terno escuro e unhas corretas” mas que logo se torna uma ameaça quando a convida para dar um passeíto. Porque ele pronuncia passeio de forma estranha e isso o torna ainda mais ameaçador: duas vezes diferente – homem e talvez estrangeiro! E é essa constatação que desencadeia todo o medo que Clarice justifica e defende até o fim da crônica.

O interessante, porém, é que Hélène Cixous, que estudou português para ler Clarice, entendia tudo menos a expressão que aparece logo no segundo parágrafo: “estava eu, como diria Sérgio Porto, posta em sossego”… quando chegou o cavalheiro… Hélène dizia que Sérgio Porto era um humorista, amigo de Clarice, que usava o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta. Mas ela não conhecia a expressão “posta em sossego”e encontrava ali uma certa dificuldade. Então pedi a palavra e lembrei que a expressão evoca um verso famoso dos Lusíadas, de Camões, quando Inês de Castro é encontrada pelos algozes que o rei pusera em seu encalço. O rei era o pai de seu amado D.Pedro (Pedro I de Portugal). Logo depois, Inês é assassinada… “Estavas, linda Inês, posta em sossego/ De teus anos colhendo doce fruto”… Hélène Cixous ficou encantada! Evidentemente, ela conhece Camões mas não tinha feito a aproximação. Agora percebia que Clarice, ao usar a expressão supostamente de Sérgio Porto havia evocado um famoso crime histórico imortalizado por Camões …E assim o clima de terror e de medo já estava desde o início sugerido.

Compreendemos, então, que uma crônica aparentemente simples, vista mais de perto e com atenção revela complexidade e riqueza.

Há um momento, nessa crônica, em que Clarice escreve:

*”bem sei que o Homem é um ser tão estranho a si mesmo que, só por ser inocente, é natural.” Pois na Kabala, aprende-se que o nome Adão quer dizer: “Que é isto?” – a primeira grande pergunta! A escrita de Clarice Lispector, já tive a oportunidade de dizer e escrever, é um constante questionamento. Clarice não afirma, ela pergunta. Por isso é inquietante, por isso também assusta. E uma das raras crônicas que poderiam se confundir com poesia, e que provavelmente a internet já faz circular como tal é “Eu sou uma pergunta” composta de perguntas do começo ao fim. E essas perguntas servem para cada um de nós. São as nossas próprias perguntas, que nem sempre temos a coragem de formular.

Leave a Reply