Já depois de deixar de leccionar chegou-me às mãos um texto que transcrevia um debate sobre a Livre-Troca, mais precisamente, Free trade in the new global economy:a discussion on the state of u.s. trade policy, publicado por The Brookings Institution, e por onde passava muito do que ensinei e da forma como o fiz. Era também um texto onde se fazia referência a um certo Canes sobre quem se escrevia“And somebody told me that Canes in his latter days backed off the theory of free or thought free trade might not work or was becoming not working, I guess, is the way he put it.” Ou mais ainda “So, Canes may have been perceptive in seeing that the basis for the “Ricardoan” theory was going to be eroded with the passage of time, but I don’t think it happened in his lifetime.”
Como é evidente, era pois um autor que me interessava, uma vez que sou um crítico da teoria da Livre-Troca, e pela discussão o autor citado não seria dos menores, antes pelo contrário, seria dos mais relevantes de sempre . Mas quem era Canes? Note-se, estamos a falar de uma publicação da Brookings Institute! Pesquisamos na Internet, introduzimos toda uma série de termos adicionais, mas nada. Escrevi a um economista americano de renome, questionando-o se não seria Keynes a pessoa citada. A resposta deste meu amigo americano, com o qual mantenho uma boa relação, foi implacável: “na Brookings nunca se falaria tão respeitosamente de Keynes. Não se pode estar a falar dele.” Bom, quem é então? Pertinente questão esta, que ficou entre nós sem resposta. Um colega meu fez o mesmo trajecto na Internet que eu, e nada. A dada altura lembrei-me e virei-me para o meu colega questionando-o, como é se que pronuncia Keynes em inglês. Imediatamente à resposta dele voltei a questiona-lo como é que se pronunciava Canes em inglês. Espanto nosso, da mesma maneira, o mesmo é dizer que o Canes citado não era nada mais nada menos que Keynes, ele próprio. Eu que o tinha visto sempre como defensor da Livre-Troca, descobria agora, por intermédio deste debate na Brookings que Keynes (Canes) “described free-trade to economists is close to religion. And you couldn’t step on it.” Já depois disto, o nosso bom amigo americano escreve-nos a dizer que só poderá tratar-se de Keynes.
Foi por aqui que me interessei por apanhar o texto de Keynes em que atacava a Livre-Troca e em que se considerava a teoria desta quase como uma religião.
Em tempos encontrei um um artigo de Sapir sobre este texto, acompanhado do artigo original de Keynes, mas em inglês, que guardei para quando estivesse disponível para o colocar numa série. Chegou agora a altura. . São estas duas peças que vamos publicar no nosso blog “A Viagem dos Argonautas”. Em França, o artigo de Keynes foi apenas editado em inglês, em Portugal, aventurámo-nos, eu e um antigo aluno meu, Flávio Nunes, em traduzir o texto e apresentá-lo aos leitores na língua de Camões. Tarefa nada fácil, diga-se, e é desse trabalho que agora damos conta aos leitores de “A viagem dos Argonautas”. Um trabalho difícil, linha a linha, período a período, parágrafo a parágrafo. Um trabalho em que tínhamos que recriar os tons e os sons daquela época, o que era tarefa praticamente impossível. Demos ambos o nosso melhor, disso temos a certeza e a certeza temos igualmente que nos sentimos orgulhosos ao ler o texto em questão, um pelo que ensinou, o outro, o antigo aluno, pelo que aprendeu e aprendeu a estudar criticamente Ricardo, o pai da Livre-Troca. Poderíamos pedir a alguém que visse e revisse o texto. Optámos por não o fazer, para deixar bem claro o esforço feito para ver os tons e ouvir os sons da cultura da primeira metade do século. Um esforço enorme. Conseguido? Não sabemos. Mas o texto na língua original também está publicado no nosso blog.
Porém, há ainda aqui, no trabalho da nossa tradução, duas outras certezas. Por um lado, saímos culturalmente mais ricos ao repensar linha a linha este mesmo texto, por outro, saímos mais conscientes de que o que se está a fazer contra a Europa só pode ser encarado ou como estupidez ou como pura maldade, digamos como puro sadismo. Com efeito quando hoje já se começa a pensar que por este vale a Europa caminha para a guerra, quando no texto de Keynes se lê:
“Portanto, honestamente simpatizo com aqueles que desejam minimizar e não com aqueles que querem maximizar o entrelaçamento económico entre as nações. Opiniões, conhecimento, ciência, hospitalidade, turismo, etc. estes são factores que devem ser de natureza internacional. Contudo, sempre que for razoável e convenientemente possível, deixe-se acima de tudo, que o financiamento seja essencialmente nacional no que respeita aos bens básicos. No entanto, ao mesmo tempo, aqueles que procuram desembaraçar um país dos seus envolvimentos devem ser muito cautelosos e devem procurar ir devagar. Não deverá, portanto, ser uma questão de rasgar raízes, mas sim de uma lenta formação de uma planta a crescer direccionando-a num trilho diferente. Por estas sólidas razões, estou inclinado a acreditar que, depois da transição realizada, um maior grau de auto-suficiência nacional e de isolamento económico entre os países do que o que existia em 1914, tende a servir mais solidamente a causa da paz, contrariamente à via daqueles que querem optar pelo caminho da rápida internacionalização económica.”
E que poderemos nós então pensar senão da maldade dos nossos dirigentes? Podemos ainda continuar a citar:
“A grande questão para mim é, hoje, o facto de não haver perspectiva de uniformidade de um sistema económico global para a próxima geração, como existia, de um modo geral, durante o séc. XIX, dado coexistir a necessidade de nos libertarmos tanto quanto possível das interferências que as alterações económicas noutros locais nos possam afectar, a fim de que nos seja possível executar as nossas próprias experiências preferidas em relação à República ideal do futuro; e em que provocando-se um movimento deliberado para uma maior auto-suficiência nacional e isolamento económico, poderá então facilitar a execução da nossa tarefa, na medida em que os custos económicos implícitos não serão excessivos. Julgo haver mais uma explicação acerca da reorientação do nosso raciocínio. O séc. XIX cunhou de forma vincada a máxima de que se pode chamar de “os resultados financeiros”, como um teste para a conveniência de qualquer curso de acção patrocinada pelo sector privado ou pela acção colectiva. Toda a conduta de vida foi transformada numa espécie de paródia de um contador de pesadelos, [o registo de ganhos contabilísticos]. Ao invés de fazer uso eficiente dos abundantes recursos materiais e técnicos na construção de metrópoles equilibradas, os homens do séc. XIX construíram lugarejos; inclusive eles achavam correcto e aconselhável construi-los, porque na lógica da empresa privada isso era rentável, “pagavam-se a si-mesmos” enquanto ao mesmo tempo atribuíam à construção de uma cidade ser um acto de extravagância tola, o que, à luz da linguagem imbecil do sector financeiro é “hipotecar o futuro”- embora a construção de grandes e gloriosas obras possa empobrecer o futuro, nenhum homem se deveria guiar e nem permitir que a sua mente seja assediada por falsas analogias resultantes de uma contabilidade irrelevante. Ainda hoje gasto o meu tempo – metade em vão, mas analogamente, devo admitir, a outra metade com sucesso, na tentativa de convencer os meus compatriotas que a nação como um todo formará um escudo mais sólido, será seguramente mais rica se os homens desempregados e as máquinas abandonadas forem usadas na construção das tão necessárias casas do que contrariamente de serem eles forem mantidos na ociosidade. Nas mentes desta geração ainda pairam significativas obscuridades provocadas por cálculos falsos que tentam esconder conclusões óbvias, ou seja, a dependência dum sistema de contabilidade financeira que lança dúvidas sobre se uma tal operação se permite si-mesma ser “paga”. Temos que permanecer pobres! Porque não é rentável, porque não se paga a si-mesmo, o trabalho de nos fazermos ricos . Temos que viver em casebres, não porque não possamos construir palácios, mas porque eles não são rentáveis, porque não se fazem “pagar”.
A mesma regra de cálculo financeiro autodestrutivo governa todos os caminhos da vida. Destruímos a beleza do campo, porque os esplendores da natureza não têm valor económico. Somos capazes de apagar o sol e as estrelas, porque não pagam dividendos. Londres é uma das cidades mais ricas da história da civilização, mas não pode “pagar” os mais altos padrões de realização de que os seus próprios cidadãos vivos são capazes de realizar, porque eles não se “pagam” a si-mesmos, porque esses altos padrões não são rentáveis.”
Por aqui se vê o projecto dc Keynes, subjacente nos Trinta Gloriosos anos de crescimento contra os Piedosos anos de empobrecimento que agora nos querem impor em nome dos mercados ou do cálculo financeiro que lhe está subjacente. Mas, note-se, Keynes escreveu isto em 1934!
Quanto à actualidade deste mesmo texto servem-nos como exemplo, por um lado, a desindustrialização nos países desenvolvidos e na Europa em particular, e, por outro lado, o que se passou agora em Bali, em que a reunião da OMC é um outro e clamoroso exemplo da sua actualidade. Ainda neste campo, devemos chamar a atenção para a crítica do preço mais baixo no sistema capitalista feita por Keynes, que assim está a criticar duramente o comportamento da União Europeia em que tudo sacrifica em nome do preço mais baixo perdendo, por isso mesmo e mecanicamente, a autonomia económica no seu espaço face ao mercado mundial sem regras. São pois exemplos da realidade de hoje que se apresentam como prova da grandeza deste texto. Mas disto daremos exemplos a propósito de Bali e da OMC, disso falaremos numa outra coluna, na coluna a que chamaremos: retratos da Europa, retratos do Mundo.

