A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 54 – por Sérgio Madeira

imagem163[1]Capítulo cinquenta e quatro

Como já se disse, Norberto sentia-se moçambicano. O entusiasmo com a Revolução do 25 de Abril não o atingiu como à generalidade dos outros oficiais seus amigos. O grupo dos “cinco mosqueteiros” dispersou-se – Alfredo Nunes, o médico, estava em Portugal vivendo intensamente os 18 meses em que o país parecia ir a caminho do socialismo. Francisco e Maria que entretanto tinham casado, foram também para Portugal. Francisco profissionalizara-se como militar e era agora sargento. O padre Manuel fora de Argel para Lisboa. Abandonara a ordem e obtivera nacionalidade portuguesa. Com a sua cultura musical, enveredara pela carreira de pianista, tocando em bares, clubes e hotéis.

A «Organização» não resistira às rivalidades políticas. Antes da independência fora dissolvida, pois era um ninho de centopeias que quando não podiam morder noutras, mordiam em si mesmas. Norberto, genro de Francisco Kachawa e com brilhantes serviços prestados à FRELIMO, tornou-se num elemento de confiança, desempenhando missões diplomáticas. Nunca quis aceitar cargos que lhe dessem visibilidade. Poderia ter ascendido ao posto de oficial general, poderia ter sido ministro ou embaixador. Depois de uma longa conversa no Palácio da Ponta Vermelha, a sós com Samora Machel, ficou assente que Norberto seria uma toupeira e não uma estrela rutilante. Samora, bom conhecedor de homens, percebera que aquele rapaz detestava os focos mediáticos e que se insistisse em o expor a essa luz, o perderia.

Não conseguira executar Nachawi. As pistas que a ele conduziam, tinham sido apagadas. Em 1981, tendo aceite fazer parte de uma equipa docente encarregada de ministrar um curso destinado a militares que, ocupando postos de comando,  não possuíam a preparação cultural adequada, ao entrar num anfiteatro da Eduardo Mondlane, olhando as dezenas de rostos expectantes, viu entre eles, inexpressiva, a inesquecível face de Nachawi.

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