CARTA DE VENEZA – 67 – “ A AFRICANA, DE MEYERBEER, VASCO DA GAMA E PORTUGAL” – por Sílvio Castro

Em meio à variada vida artística de Veneza, a sua anual temporada dedicada à lírica e à dansa ocupa posição primacial. A música, em particular a lírica, simbolizada no grande esplendor do Teatro La Fenice, desde o século XVIII envolve a cidade e chama ao seu encontro milhares de visitantes.

A tempora lírica 2013-2014 acaba de ser inaugurada, apresentando-se inicialmente com A Africana, de Joaquim Meyerbeer, a partir do libreto de Eugénio Scribe.  A colaboração entre Meyerbeer e Scribe, ambos nascidos no ano de 1791, se desenvolve por muitos anos, até a morte de Scribe, em 1861. O compositor alemão morre quase logo depois, em 1864. Dessa longa colaboração, Meyerbeer teve do libretista e dramaturgo francês textos para muitas de suas obras, entre as – possivelmente a sua obra-prima – Les Huguenots – de 1836.

A Africana alcançou grande sucesso desde a sua estréia, póstuma, em 1865. Nela, Meyerbeer acentua a sua aversão pelo colonialismo europeu, exaltando os valores ingênuos e universais dos povos colonizados, muitas vezes escravizados. Em A Africana tais valores são acentuados a partir das empresas de Vasco da Gama, com as suas viagens de conquistas e revelações do universo africano. As Ìndias do jovem almirante português é alguma coisa de legendária, capaz de dar um novo rumo à vida de todo o ocidente, em particular da Europa. Por isso mesmo, Meyerbeer e Scribe pensavam inicialmente de denominá-la, “Vasco da Gama”.  Com o passar dos anos, o trabalho se dirige para a sua estrutura definitiva, na qual a figura do heróico navegador português se apresenta em forma particular, mais tendente à exaltação de valores contigentes, do que à expressão de uma personalidade bem definida.

Os africanos são os grandes personagens do trabalho de Meyerbeer, principalmente aqueles da raínha-escrava, Sélika, e o do seu fiel servidor, o combatente Néluko. Em ambos, o compositor depositou todos os seus ideais de liberdade e justiça.  Nélika e Néluko, ao contrário com quanto acontece com o personagem Vasco da Gama, possuem valores maduros, estáveis e conscientes, traduzidos com grande ênfase psicológica, própria de personalidades de grandes estruturas. Tais valores estão especialmente expressos nas árias cantada pelo barítono que incarna Néluko nos atos II,  Fille des rois;  III, Adamastor, roi de vagues profondes; IV, L’avoir tant adorèe, e o soprano, em Sélika, no ato V, conclusivo, La raison m’abandone.

Enquanto os personagens colonizados são criados em altos níveis por Meyerbeer e sotolineados pela sua cativante música, misto de “grande épera” e composição romântica de intensas vibrações, aqueles portugueses, além de Vasco da Gama, como Inés e D. Pedro, são vagas e quase inconsistentes. Nesse sentido, a figura inicialmente fascinante de Inés se disperde com o transcorrer da ópera, isso fazendo com que o seu possível amor por Vasco da Gama se revele de nível menos expressivo quanto aquele da raínha-escrava em relação ao almirante lusitano. A mesma predominante incipiência acontece com o príncipe D. Pedro, quase imperceptível enquanto comandante de um grande império.

Porém, na figura praticamente neutra do grande Gama, em uma determinada ária, retorna a imagem legendária do personagem. Trata-se daquela cantada pelo tenor que impersona Vasco da Gama, no ato IV, Beau paradis:

 

                     Ó paraíso das ondas saído,

                           florescente solo,

                           esplêndido sol,

                           por vós eu sou preso!…

                    Tu me pertences, ó novo mundo:

                           à pátria te posso oferecer!…

                           Nosso é este terreno fecundo,

                               que a Europa toda pode enriquecer!…

                    Um sonho mais não é…

                           este pertence a mim!

 

Chegados ao fim da porfia, Sélika – a raínha escrava, sempre amante de Vasco da Gama – sobe às alturas venenosas do Adamastor e dali contempla o oceano, com o olhar que passa pelas águas idealmente até aquelas do Tejo diante de Lisboa, aonde estará o amado. Lentamente morre a raínha-escrava. Com ela, igualmente o fiel Néluko. Ambos encontram a morte, mas com ela igualmente a paz que a tudo perdoa.   

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