A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 55 – por Sérgio Madeira

imagem163[1]Capítulo cinquenta e cinco

 Fragoso disse;- Já se sabe que oficial moçambicano era o brigadeiro-general Afonso Nachawi…

– Nachawi não era o nome do agente da PIDE/DGS, o do massacre de Xuvalu? – perguntou António.

– Era esse o nome, com efeito, parece que se tratava de um irmão…

Cecília murmurou:

– Aquele homem está a ouvir ou a tentar ouvir a nossa conversa.

Quando os rostos se voltaram na sua direcção, o homem baixou os olhos e pareceu concentrado no monitor. Baixaram as vozes. António disse;

– Uma coisa surpreende – a pouca atenção que os jornais deram ao assunto – dois mortos num tiroteio não é coisa que aconteça com frequência – para mais sendo um deles um oficial superior de um país estrangeiro.

– É verdade. Mas já me tentaram entrevistar, um semanário do continente… – respondeu Fragoso.

– E em Moçambique, será que o caso teve alguma repercussão? –  Elisabete intervinha pela primeira vez na conversa – foi António quem respondeu:

– Passei uma vista de olhos pela imprensa on line e, nos jornais moçambicanos, nem uma palavra.

Cecília avisou em voz muito baixa:

– Ele continua a esforçar-se por ouvir…

Resolveram sair. Pagaram os cafés. Quando transpunham a porta, António olhou para trás – o deficiente seguia-os com  o olhar. Vendo que António o fitava, esboçou um cumprimento inclinando a cabeça e erguendo a mão direita. António correspondeu. Passearam pelas ruas do centro. Na Gonçalves Zarco, a rua pedonal e de maior comércio, muitas das lojas estavam ainda fechadas. Fragoso levou-os até ao hotel. Na recepção, perguntou ao empregado quem era o hóspede da cadeira de rodas. O jovem recepcionista recusou-se a dar a informação – manter o sigilo sobre os clientes era um dos seus deveres. Fragoso riu-se e identificando-se como autoridade, explicou ao rapaz que queria ali alguém responsável. –

-Imediatamente! –  O grito, dado com voz habituada a ser ouvida de bordo a estibordo, trouxe um gerente, um senhor idoso que reconheceu o tenente e lhe pediu desculpa – o rapaz era um estagiário continental. E disse quem era oo senhor da cadeira de rodas – «Dr. Norberto de Sousa, um alto funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Moçambique». Ouviram uma voz rouca:

– Façam o favor de dizer o que querem de mim… – empurrando as rodas da cadeira com as mãos enluvadas, aproximou-se rapidamente.

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