UMA NOVA GERAÇÃO – OS”POLEGARZINHOS” por clara castilho

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António Sampaio da Nóvoa, na sua comunicação apresentada na Conferência “João dos Santos no séc.XXI”e que vem publicada no site joaodossantos.net escreveu:

“Michel Serres chama ao seu livro A polegarzinha, a geração do pequeno polegar, e diz-nos que houve três grandes revoluções na história da humanidade:

– a primeira, foi a invenção da escrita, e durou vários milénios;

– a segunda, foi a descoberta da tipografia e do livro impresso, e já dura há cinco séculos;

– a terceira, é a revolução digital, que dura há poucas décadas mas já mudou quase tudo na nossa vida.

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E afirma: Sem que nos tenhamos apercebido, um novo ser humano nasceu, num período de tempo muito curto, aquele que nos separa dos anos 1970.

Que falta nos faz, hoje, João dos Santos para nos ajudar a alcançar, a entender este novo ser humano, que vive ao nosso lado, mas cuja compreensão nos está a escapar…

Fiquemos com Michel Serres: Estes alunos habitam o virtual. As ciências cognitivas mostraram que o uso da Teia, a leitura e a escrita nos dedos das mensagens, a consulta da Wikipedia ou do Facebook não excitam os mesmos neurónios nem as mesmas zonas corticais que o uso do livro, da ardósia ou do caderno.

Estes alunos podem manipular diferentes informações ao mesmo tempo. Não conhecem, não integram e não sintetizam como nós, os seus ascendentes. Eles não têm a mesma cabeça.

Por celular, acedem a todas as pessoas; por GPS, a todos os lugares; pela Teia, a todo o saber. Eles habitam um espaço topológico de vizinhanças enquanto nós vivíamos num espaço métrico, marcado por distâncias. Eles não habitam o mesmo espaço.

E, continua Michel Serres, esta “incompreensão” está a criar uma falha entre as nossas concepções de educação e a forma como estes alunos aprendem:

No interior desta falha, estão os jovens que pretendemos educar com base em lógicas e modelos que datam de um tempo que eles já não reconhecem: edifícios, recreios, salas de aula, anfiteatros, campus, bibliotecas, laboratórios, e até conhecimentos… lógicas e modelos que datam de um tempo e que pertencem a uma época em que os homens e o mundo eram o que já não são mais nos dias de hoje.

Os nossos jovens não pensam como nós, não sentem como nós, não comunicam como nós e não aprendem como nós. Vivemos um tempo de profunda revolução na aprendizagem: o nosso problema já não é apenas a informação, mas a inteligência (de inter-ligar), a comunicação; o nosso problema já não é apenas o lugar, mas as redes, já não é o consumo passivo de conhecimento, mas a sua criação.

Tudo temáticas que preocuparam João dos Santos. E é por isso que a sua obra continua tão útil para pensar o século XXI.”

Um assunto que me preocupava mas não conseguia ver na sua totalidade.

“A polegarzinha – um piscar de olho à maestria com que os jovens escrevem SMS com os seus polegares – é uma população que nasceu nos anos 1985 a 1995, e cresceu com a propagação das novas tecnologias. Segundo Serres, os pais da polegarzinha (os papas ronchon) trabalham “com” as novas tecnologias – o que implica uma certa exterioridade (“não somos obrigados a conhecer o que se passa dentro da máquina”), e por conseguinte têm todos uma “cabeça exteriorizada”. Este, explica que, trabalhar  “com” alguma coisa é estar fora dessa mesma coisa. A geração seguinte, a das polegarzinhas, vive num mundo implicado pelas novas tecnologias, não vive “com” as novas tecnologias, mas sim “dentro” delas. E é esse mundo que os avôs e pais da polegarzinha não entendem”.

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E, assim, tudo está diferente. E diz o autor:

 “Antigamente (anos 1960-1980), quando eu entrava no meu auditório, o conteúdo da aula era relativamente desconhecido para os meus alunos. Estávamos na era da “presunção de incompetência”. Hoje em dia, qual a probabilidade e quantos alunos visitaram ou investigaram na Internet e na véspera de uma aula os conceitos que irei leccionar no dia seguinte? Estamos perante uma “presunção de competência”.” Atualmente, os alunos pesquisam na Internet tudo e mais alguma coisa (“o saber está na Wikipédia. Eu sei, porque clico”) e é por isso que a relação pedagógica é cada vez mais assimétrica.  Já não basta ao professor lançar sobre os seus alunos uma resma de conceitos e de conhecimentos decorados (ou sabidos), porque antes que o professor tome a palavra o aluno já adquiriu um certo número de informações. “É preciso saber ouvir os estudantes” diz-nos Serres, é preciso “saber o que eles sabem […], escutar a novidade para a compreender”, para compreender o mundo onde os nossos alunos habitam. Uma vez percebida e assimilada essa “novidade”, podemos adaptar o nosso ensino. Para podermos julgar as novas tecnologias é preciso sair do mundo anterior e “entrar” literalmente neste novo mundo do digital, do instantâneo, do efêmero e do virtual.

[…] Para explicar como adaptar-se a esta nova realidade, Serres propõe que pensemos sobre o conceito de autoridade. Do ponto de vista do ensino, a palavra “autoridade” torna-se fundamental. Autoridade vem do latim “augere”, que significa fazer crescer, aumentar…, consequentemente, quem tem autoridade é aquele que aumenta qualquer coisa. Daí que, hoje, para ter autoridade num auditório ou numa sala de aula é preciso “aumentar” o saber (presunção de competência), fazendo funcionar o que diferencia um professor de um aluno, isto é, a “novidade, a inovação, a experiência e a inteligência”, palavras de Serres.

Gostaria muito que certas pessoas se debruçassem sobre esta realidade e sobre as necessárias adaptações a fazer. Cá por mim já fico doida com a apetência do meu neto para pegar nos telemóveis e nos comandos da televisão (os verdadeiros, que os de brincar não lhe interessam…) para fica a olhar para o écran do computados ou para o da televisão. Tenho que andar sempre a trocar-lhe as voltas. Mas que gostava de saber porquê, ai isso gostava. Um desafio. Se descobrir, depois conto.

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