ZULMIRO – por Adão Cruz

Um Café na Internet

Ilustração: Desenho de Manuel Cruz

Diziam que ele tinha o diabo no corpo mas não tinha. Pelo menos assim o afirmava a sua prima, sabida que era em coisas de mau-olhado e almas penadas. OImagem1 diabo no corpo era outra coisa. O que ele tinha era uma comichão dos diabos que o atormentava dia e noite, obrigando-o a coçar-se até se arranhar e fazer sangue.

O Ti Salvador dizia que, sem borbulha, sem mancha ou licenço à flor da pele, o mal estaria por baixo, sabe-se lá onde. Dada a falta de qualquer médico nas redondezas, o Ti Salvador reclamava-se de toda a sabedoria nestas coisas de maleitas, sabedoria já herdada de seu pai e avô.

Para entrar debaixo da pele, só uma mezinha muito antiga, raramente usada por cheirar muito mal. Uma pasta de azeitonas esmagadas, com uma mão cheia de sementes de linhaça e outra mão cheia de coirato bem cozido e bem pisado, uma colher de óleo de rícino e uma pequena porção de merda de galinha.

Zulmiro, sem fé nenhuma, besuntou-se da cabeça aos pés e naquele dia a comichão desapareceu. Mas era tal o fedor que a sua presença exalava, que as pessoas não se aproximavam dele a menos de cinco metros. Zulmiro não aguentou a cura e preferiu a coçadura.

Zulmiro sabia bem qual a causa do seu mal e do seu sofrimento. Não só sabia como tinha a certeza. Simplesmente, nunca o contara a ninguém, por vergonha. Tudo começara com aquele beijo atamancado, arrepiado, babado, a saber a remédio das bichas. Tudo começara naquele dia em que a Maria tola o empurrou para trás da porta, lhe apertou a ferramenta até o fazer ganir e lhe assapou a boca desdentada na sua, como uma ventosa, deixando-o agoniado semanas a fio.

Por isso ele sabia qual o remédio para o seu mal. Não só sabia como tinha a certeza. Só outro beijo o poderia salvar, um beijo limpo, casto e puro, a ferver de amor e ternura. Mas como iria ele arranjar uma namorada, assim a coçar-se como um bicho ou a cheirar a estrume?

A Fatinha há muito que lhe punha os olhos em bico. Era uma dor de alma, para quem quer que o sentisse, ver o Zulmiro a chorar pelos cantos, perdido na angústia de nunca dela se poder aproximar.

A Fatinha cantava na capela o Hosana nas alturas e outras coisas. Um dia, aguentando a comichão até humanos limites, o Zulmiro ajudou-a a levantar uns livros que lhe haviam caído do regaço. A Fatinha agradeceu com um sorriso tão doce e tão terno que o Zulmiro não teve mais comichão até ao fim da missa.

Mais tarde, Zulmiro soube pela Tia Alice, sua madrinha, que a Fatinha lhe confessara gostar muito do afilhado, que achava um rapaz bonito e bondoso, e não acreditava que tivesse o diabo no corpo.

Zulmiro andou até à Páscoa com estas palavras nos ouvidos e na cabeça, fazendo delas a mais bela canção do acordar e do adormecer. Além disso, caíra sobre ele a bênção do Céu. Quanto mais nelas pensava, menos a comichão o apoquentava.

Um dia, Zulmiro encheu-se de coragem. Empastelou-se de mezinha pestilenta durante três dias, a seguir tomou um banho de alto abaixo, borrifou-se com água-de-colónia e foi à capela. Fatinha estava sozinha nas suas tarefas de zeladora do Coração de Jesus. Zulmiro ajoelhou-se no primeiro degrau do altar, lavado em lágrimas, e contou-lhe toda a sua desgraçada história, desde o maldito dia da investida da Maria tola, quando ele tinha treze anos.

Fatinha afagou-lhe o rosto, e, perante o olhar atónito da Virgem, depôs-lhe nos lábios o beijo mais doce que algum dia um ser humano sentiu.

E assim o diabo meteu o rabo entre as pernas, deixando o Zulmiro em paz e cheio de felicidade.

E também a Fatinha, que, ao fim de nove meses, mesmo sem autorização de Deus, lhe deu o primeiro Zulmirinho.

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