Resistência
O albergue de Brialhos encontra-se fechado. Que é isto? Um cartaz avisando que abre às seis, sete horas – por exemplo – seria demasiado simples, cumpre portanto enviar uma mensagem com o número do B.I. e seguir todas as instruções…
Prossigo para Caldas? Se por um lado gostava de evitar o albergue dos quatro sentidos, por outro Jette e Pieter e Angelika e a Fonte das Burgas representam boas razões para me demorar por lá. Sento-me num banco à entrada do albergue; vou comendo a segunda dose de arroz, a seguir escrevo duas páginas de diário. Recordo-me de súbito que há outro albergue a quinze quilómetros daqui… Em Valga. O que perfaria hoje um percurso de trinta e três quilómetros. Tenho combustível para lá chegar mas terei também pernas?
Exponho o imbróglio da inscrição no albergue quando as finlandesas chegam. A que esteve doente logo replica:
– Ah, a Suécia é um país tão complicado… Conta comigo, trato já disso: tenho treino de sobra!
Pois eu vivo em França, um país muito simples. Exponho-lhe o mal-entendido… Não se trata de enviar ou não uma mensagem, o que toda a gente com mais de seis e menos de cem anos pode fazer: trata-se de defender um modo de vida. Claro que em Portugal, quando vou ao Campus de Justiça, pago vinte e tal euros e, em vez de me darem o registo predial, me mandam imprimi-lo através da Internet… Sigo as instruções. Claro que – como Virgílio acompanhou Dante pelos infernos – acompanho a minha mãe pelo Serviço Nacional de Saúde. Claro que uso o Cartão Viva com as suas regras absconsas. Claro que… Não vale a pena enumerar o que os leitores muito bem sabem e a finlandesa não poderá compreender, apenas lhe faço notar que, quando não existe alternativa, na Suécia como na Galiza, o que não tem remédio, remediado está, porém agora, no que me toca, não colaboro: posso avançar mais quinze quilómetros. E o que são quatro horas de caminhada quando defendemos os nossos valores?
