EDITORIAL – OS BANQUEIROS SÃO POVO?

Imagem2Um tal senhor Roberto Centeno, colaborador do El Confidencial, tem estado a publicar artigos onde ataca as teses soberanistas que preconizam a separação da Catalunha do Estado espanhol. Segundo ele, tudo não passa de uma manobra da oligarquia catalã, que ameaça com a secessão e procura obter vantagens tributárias em troca da permanência no seio do “reyno”. Não pomos de parte a hipótese de os poderosos agentes financeiros da Catalunha, banqueiros, industriais e outros, estarem a usar a vontade popular como arma de arremesso e que, obtidas as vantagens pretendidas, não usem o seu poder contra as forças independentistas. O que não é sério é reduzir séculos de luta contra o centralismo castelhano, à dimensão de uma suja e mafiosa chantagem e confundir o desiderato colectivo de um povo com a ganância de um grupo de miseráveis.

Há um aspecto em que a filosofia do poder financeiro e o anarquismo coincidem – na recusa das fronteiras, das bandeiras, do nacionalismo – O anarquismo é internacionalista. Não aceita fronteiras, nem nações. Da mesma forma que não aceita o Estado. A fraternidade de todos, na liberdade e na igualdade é um objectivo anarquista. O capitalismo também não reconhece fronteiras, nem bandeiras, nem estados – mas usa-os como meio de persuasão. Fraternidade e igualdade são palavras riscadas no léxico do poder económico. Fernando Pessoa, em O Banqueiro Anarquista, constrói a irónica teoria de que «todos devem trabalhar para um mesmo fim, mas separados, de forma a não sucumbirem à pressão social, podendo tornar-se livres do dinheiro, da sua influência e força, através da aquisição da maior soma possível.»

Roberto Centeno, publicou no El Confidencial mais um artigo anti-catalanista, denunciando as teses soberanistas como uma conjura contra Espanha, levada a cabo por «caixas e bancos». Segundo ele os nacionalistas catalães, «ou seja, a imensa maioria, não decidem nada, pois são manipulados por uma oligarquia de características mafiosas» (…) «um grupo profundamente endogâmico, onde “la famiglia” é o  centro de interesses e os laços de sangue são essenciais. Esta possui um amplo leque de excelentes professionais ao seu serviço – economistas, policías, juízes, catedráticos, artistas, etc., e controla as principais instituições, desde a Generalitat às universidades, às organizações profissionais ou ao FC Barcelona, que é o seu altifalante principal». Tudo o que o senhor Centeno denuncia existe, mas não caracteriza só a oligarquia catalã. Será que os banqueiros madrilenos são gente sã e de coração aberto? Em Portugal o tecido endogâmico é evidente, uma trama urdida com casamentos entre famílias detentoras do capital e gente dos partidos do arco do poder – o filme «Os Donos de Portugal» explica-o de forma exemplar. Ricardo Salgado, o homem do BES, numa entrevista, defendia a integração de Portugal no estado espanhol porque o seu banco teria grande margem de expansão nas áreas metropolitanas de Madrid e Barcelona…

Todos sabemos que é assim. Porém, reduzir a ânsia de independência dos milhões de catalães a uma manobra chantagista de alguns grupos e famílias, é algo de tão miserável que só merece desprezo – o senhor Centeno é um lacaio da oligarquia centralista que apenas se pode queixar de ser mais estúpida do que a sua congénere catalã.

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