CONTOS & CRÓNICAS – ASSINADA E TUDO – por Adão Cruz

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Vem isto a propósito ou a despropósito daquela moça trintona que se sentou à nossa frente na mesa da esplanada, entre dois tipos iguais, de fato escuro e pasta preta na mão.

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     Ilustração de Adão Cruz

 

 

Acendeu o cigarro, pousou o maço na mesa, aspirou bem fundo, e expeliu para o ar uma longa bafurada de fumo e CO2.

Os cabelos caíam pelos ombros em estrias de várias cores, dentro da mesma tonalidade aloirada.

Ostentava no alto da cabeça um par de óculos escuros com vidros do tamanho de um CD.

A pele castanha de cima abaixo, um tanto ebanácea, denunciava uma enorme quantidade de dias, semanas ou meses de ultravioletas dentro das células, encharcadas de melanina.

Um vaporoso vestido branco, de renda, cobria parte do corpo desde o meio dos seios ao terço superior das coxas, deixando perceber que por baixo havia, como que emboscados, um soutien e umas cuecas também brancos, ora espreitando ora se escondendo, ao sabor dos movimentos.

Um colar cravejado de bolinhas de cor lilás, era irmão dos brincos que chegavam à clavícula.

Afilavam os dedos das mãos umas unhas pontiagudas, de uma cor vermelha arroxeada igual à dos lábios, dando ao conjunto um ar vampiresco.

Na mão direita havia dois anéis, um duplo, na falange e na falangeta do anelar, presumivelmente ligados por uma fina ponte invisível, e um outro enorme, no indicador, com uma cabeça de urso, azul, do tamanho de uma bola de ping-pong.

No braço esquerdo uma enfiadura de pulseiras.

De resto, céu limpo até aos pés, onde davam nas vistas uns sapatos completamente abertos, com saltos inspirados na Torre Eiffel de cabeça para baixo, e cheios de atacadores que se inseriam a meio da perna e desciam até às pontas dos dedos, sendo que o eixo desse complexo de atilhos, tinha um correr de pérolas iguais às da gargantilha.

No pé direito, entre o dorso e a planta, uma assinatura percorria o espaço que vai do calcanhar ao dedo mínimo.

Foi quando o meu amigo, de boca pasmada, me disse baixinho : … e está assinada e tudo, carago!

                                      

 

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