DE LONDRES MANDARAM-ME UM GRANDE POSTAL ILUSTRADO – por JÚLIO MARQUES MOTA

Parte II
(continuação)

Produtividade

Uma consequência da situação de emprego relativamente “melhor” é a de que isto tem sido parcialmente conseguido em parte com uma menor produtividade. O crescimento da produtividade nesta recessão tem estado estagnado. Isto sugere que as empresas estão mais dispostas a manter os seus trabalhadores, até os menos produtivos. (por exemplo, em face da queda do output, as empresas estão mais dispostas a manter os trabalhadores empregados e com menos horas). Simultaneamente tudo isto tem estado apoiado no crescimento muito fraco dos salários nesta recessão.

Figura IV – Produtividade por hora

Ça ira - IV

A recessão de 2008 é de longe a mais decepcionante em termos de produtividade por hora. Tudo dito com esta frase, que aparece como contraponto aos modelos de crescimento intensivo, assentes em acréscimos fortes de produtividade, que alimentaram os trinta gloriosos anos, pois temos agora as empresas a quererem resistir à crise através não de políticas de expansão, públicas e privadas, mas através de politicas de precariedade das condições globais de trabalho e de um enorme pacote de políticas de austeridade, o que tem levado a um mau comportamento da despesa. Trata-se agora, não de um capitalismo a viver e a expandir-se sobretudo a partir da inovação e do seu crescimento intensivo, ou seja com aumentos de produtividade e de mais‑valia relativa, se quisermos utilizar e relembrar termos já esquecidos (criados por  Karl Marx), mas de um capitalismo a querer viver, sobretudo, à custa da intensificação da exploração salarial. Nos velhos tempos chamava-se a isto a formação de mais-valia absoluta, mas agora estes são termos que ou não se conhecem ou deles já se esqueceram. A intensificação da exploração neste contexto torna o sistema vulnerável a uma forte explosão ou implosão como se deu no Verão de há dois anos, com as lojas de Londres a serem saqueadas por gentes que não poderiam até ser acusadas de marginais. A recuarmos, portanto, a caminho do princípio do século XX e há mesmo estudiosos que nos dizem que por esta via estamos mesmo a caminho dos anos 90 mas do século XIX!

Para muitos leitores moderados esta nossa posição bem pode parecer marcadamente ideológica e tanto mais quando há por aqui quem defenda que a Inglaterra vai ser a grande potência europeia em breve, quando há por aí quem defenda que a saída da crise em Portugal passa pela possibilidade de desvalorização da moeda, o que a Inglaterra pode em princípio fazer e tem feito mas, apesar disso,  permanece profundamente mergulhada na   a crise. Para todos estes relembro aqui duas posições, dois comentários aos dados de um relatório oficial sobre os indicadores, sobre a qualidade de vida na Inglaterra e a síntese de um relatório publicado no início deste mês sobre o mesmo tema pela Fundação Joseph Rowntree.

A revista The Economist numa sua edição de Agosto de 2013 ilustrava e comentava sobre o relatório oficial publicado em Agosto de 2013:

Ça ira - V

Afirmava:

“Um futuro bem espartano aguarda cerca de 40% dos britânicos em idade activa que (…) estão a ficar para trás. Eles estão na metade inferior da escala dos rendimentos mas, ao contrário dos 10% mais pobres, vivem predominantemente de salários e sem subsídios sociais. A sua situação degrada-se sobretudo a partir dos anos de 2000 quando a evolução do PIB e dos rendimentos evoluíram fortemente a seu desfavor.”

Na mesma linha de raciocínio e semelhante, aliás, à posição da Cruz Vermelha Internacional, pela palavras de Katie Schmuecker, alto quadro da Fundação Joseph Rowntree Foundation, dizia-se em Junho de 2013:

“Os dados de hoje mostram-nos o rendimento médio a cair pelo segundo ano consecutivo, e os efeitos da redistribuição do rendimento a descerem também como resultado dos cortes havidos. Como resultado, não estamos a ver nenhuma mudança significativa na taxa global de pobreza relativa. No entanto, tem havido um aumento na taxa de pobreza absoluta, o que sugere que globalmente há mais pessoas a passarem por graves dificuldades.

Isto não é simplesmente sobre quem está ou não está a trabalhar – casais onde há apenas um ganha-pão estão a sofrer de um aumento particularmente grande na pobreza absoluta, e duas em cada três crianças na pobreza vivem em agregados familiares onde trabalha pelo menos uma pessoa. A pobreza é um desperdício de potencial humano e custa ao nosso querido país – cerca de 29 mil milhões de libras por ano. É necessário encontrar soluções para a pobreza para além da segurança social.

A crescente onda de pobreza de gente com trabalho mostra que precisamos de um mercado de trabalho onde as pessoas ganhem o suficiente para satisfazer as suas necessidades de final do mês [o sublinhado é nosso], mas nós também devemos enfrentar a questão do pesado custo de vida e a de como é que os serviços públicos, como a educação por exemplo, podem ajudar as pessoas a sair da pobreza. A pobreza é um preço que nós dificilmente podemos pagar. As políticas que transformem a perspectiva das famílias devem ser postas em prática e com urgência e precisam de ser postas a funcionar de modo articulado para terem um funcionamento eficaz.

Somente através do desenvolvimento de uma estratégia global para acabar com a pobreza é que nós podemos acabar com as suas consequências negativas”.

No relatório da mesma Fundação de Dezembro de 2013, Monitoring Poverty and Social Exclusion 2013, podemos ler :

  • A queda no rendimento mediano durante os últimos dois anos limpou todos os ganhos da década precedente. Mas o rendimento para os 10% o mais pobres têm estado em queda desde há bvem mais tempo, desde 2004 /05.
  • Cerca de 6,7 milhões de pessoas, mais de metade de todas elas em situação de pobreza, estão a viver como família onde há pelo menos um adulto que está a trabalhar – um aumento de 500 mil relativamente ao ano passado.
  • A proporção de empregos mal pagos aumentou em 2012, com três quintos deles a serem ocupados por gente com mais de 30 anos.
  • Entretanto, 13 milhões de pessoas vivem em situação de pobreza, mas com dois milhões de pessoas a mais que têm rendimentos que estão hoje acima do nível de pobreza mas que com este rendimento estariam abaixo do limiar de pobreza em 2008.
  • Entre aqueles que têm emprego, o número de pessoas a ganhar abaixo do salário mínimo subiu de 4,6 milhões para 5 milhões em 2012. Metade das famílias com trabalho em situação de pobreza têm como um dos seus membros um adulto a ser pago abaixo do salário mínimo.
  • O número de pessoas à procura de emprego a quem instaurado processo para lhe serem aplicadas  sanções é agora de  (1,6 milhões )  e o número daqueles que viram o seu estatuto de JSA caducado ou reduzido (800 000) dobrou entre  entre 2010 e 2012.
  • 400.000 famílias foram atingidas pela sobreposição de cortes de subsídios sociais resultantes da penalização de sub- ocupação (penalização conhecida como o ““bedroom tax”) e e cortes nos outros subsídios. Dois terços dessas famílias vivem já em situação de pobreza.
  • Os que recebem o subsídio de desemprego, os JSA, não são um grupo diferente dos que estão a trabalhar. Aproximadamente um em cada seis trabalhadores já antes se tinha candidatado ao subsídio de desemprego nos últimos dois anos (5 milhões) – dois quintos dos quais nunca se tinham até aí candidatado a este subsídio.

Peter Kenway, director de NPI e autor do relatório, escreve: “os membros mais pobres da sociedade estão sob mais pressão do que em qualquer outro momento desde o nascimento do Estado-Providência. O valor da rede de segurança social para adultos em idade activa está agora a afundar-se de dia para dia e de forma continuada. O apoio a disponibilizar para as pessoas que caem em situações de grande precariedade nestes tempos muito difíceis é cada vez mais ténue e os níveis dc benefícios sociais concedidos entraram numa espiral descendente. Uma forte rede de Segurança Social para agarrar e tirar toda esta gente em situação difícil é vital para a mobilidade social – e assim milhões têm sido anualmente salvos até agora – mas esta é também uma ideia que até agora nenhum líder político apareceu a defendê.la. “

Esclarecidos, portanto, quando à ideia da Inglaterra sair da crise no actual contesto do seu modelo neoliberal, a procurar a saída pelas políticas de austeridade e com as mesmas a serem aplicadas por toda a Europa. Não há assim quantitative easing que a salve, não há política de desvalorização da moeda que a coloque na trajectória de crescimento sustentado. Este esquema de austeridade, o da Inglaterra, não tem sido diferente de país em país dentro da zona euro, à margem da maior intensidade no degradar do mercado de trabalho dos países do euro e da destruição dos direitos sociais conquistados, agora cinicamente de privilégios chamados. Note-se que já estão volvidos 5 anos depois do estalar da crise. Tudo isto expõe a nu o absurdo das políticas seguidas, assentes num neoliberalismo puro e duro onde tudo o que é direito do trabalho deve ser considerado como um direito descartável, eliminável e, pelos vistos, com uma política de destruição do estado Providência de tal forma agressiva que até os efeitos das políticas de austeridade sobre o crescimento potencial são ignorados. Deste modo o gap entre o PIB potencial e o PIB efectivo pode estar a decrescer, mas isto não porque o PIB efectivo esteja a aumentar mas porque, pelas políticas de austeridade o PIB potencial pode estar a diminuir, podendo mesmo diminuir mais do que o PIB efectivo. Mas disto ninguém fala. Desperdiça-se assim também o futuro económico de um continente em nome da austeridade de hoje!

(continua)

______

Para ler a primeira parte desta crónica de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/12/31/de-londres-mandaram-me-um-grande-postal-ilustrado-por-julio-marques-mota/

1 Comment

Leave a Reply