Saio do albergue ainda de noite pois descerei o Monte Albor sempre pelo mesmo caminho: não corro o risco de me perder. Começo outra etapa de trinta e três quilómetros, se bem que hoje com mais encostas, Padron encontra-se a 15 metros de altitude, Agro dos Monteiros a 262, Ponte Velha a 160 e Santiago de Compostela a 253. Continuarei amanhã pelo Caminho de Finisterra; quero hoje chegar com tempo para ir à catedral, tentarei portanto subir e descer num ritmo rápido… E as pausas serão reduzidas ao mínimo.
Noto – uma vez mais – que o tojo, a giesta, a urze, toda a vegetação tem menos flores do que no ano passado, embora a época seja a mesma. Pouco importa: o caminho continua bonito. E agradável. Passo em S. Miguel, Cimadevila, Fontelo… Por ser domingo e a temperatura estar fresca, pouco movimento noto para além de dois ou três cães que passeiam os donos e dos padeiros que, nas suas carrinhas, vão fazendo a distribuição. Após a vandalização das portas e fechaduras, a capela e o cemitério de S. Julião encontram-se fechados das nove da noite às nove da manhã, quem fora deste horário queira entrar deve pedir as chaves em casa do senhor Miguel Sanmarco Iglesias; mas poucos serão – imagino – os que precisem de florir à meia-noite a campa dos antepassados. Chego a Pontecesures. Avanço na direção de Padron por uma estrada paralela ao rio.
Bebi duas canecas de chá, esta manhã não transpiro, por consequência sinto, hora e meia mais tarde, uma intensa vontade de urinar. As margaridas deste prado não alcançam um metro de altura, em contrapartida as duas casas que, muito espaçadas, enquadram o terreno, viradas para o rio, não abrem janelas nesta direção, para além disto, continua a ser domingo, não há ainda caminhantes e os carros são pouco frequentes. Trata-se portanto de ser rápida, poisar a mochila numa pedra, verificar se ninguém se aproxima, correr para o meio das ervas, meu dito, meu feito: garanto que foi um instante. Todavia… Surge de supetão um grupo de motas, sete ou oito, o condutor da primeira aponta – e todos me veem. Gritos e assobios. (Chamo-me Maria Papoula…) Só quero que os meus caminhos não se cruzem daqui em diante com os deles!