UMA DIVERTIDA VISÃO DE MARK TWAIN SOBRE ADÃO E EVA – por Clara Castilho

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Mark Twain (1835-1910) é um daqueles norte-americanos que reabilitam a reputação da cultura do país. Foi capaz, quando a grande nação ainda não era tão poderosa como é nos nossos dias, de definir o que de melhor e pior os Estados Unidos são capazes As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Hucleberry Finn são dois tratados sobre o american way of life. Livros para jovens, pela sua ironia profunda, são obras de leitura recomendável. De notar que o segundo é por muitos considerado o “maior romence americano”. O Diário de Adão e Eva, de que Clara Castilho hoje nos fala, é outra obra-prima do grande escritor do Mississipi.

Numa das minhas muitas idas à livraria Ler Devagar descobri uns livrinhos a preço convidativo – 2 e 3 euros). E assim me pus a ler O Diário de Adão e Eva de Mark Twain,  que muito me divertiu. Nele o autor põe Adão e Eva a descobrirem-se aos poucos, um ao outro e ao mundo onde vivem.

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Entretanto vim a verificar que já tinha havido mais duas edições anteriores (Coisas de Ler, em 2007, outra da Cavalo de Ferro, de 2004). Uma obra religiosa? Não, é uma história contada por alguém que sempre teve o humor como religião.

Regalemo-nos:

ADÃO

[…] Esta nova criatura de cabelos compridos é muito metediça. Anda sempre de roda de mim e segue-me para todo o lado. Não gosto disto; não estou habituado a ter companhia. Preferia que ficasse com os outros animais.

[…] A nova criatura nomeia tudo o que aparece antes de eu poder protestar. E o mesmo pretexto : tem aspecto de tal coisa.

[…] Tentei expulsá-la, deitou água pelos orifícios por onde vê. […] quem me dera que não falasse; está sempre a falar.

[…]A nova criatura diz que se chama Eva.

[…]Ela disse-me que foi feita a partir de uma costela do meu corpo. Isso é no mínimo duvidoso, senão mais do que isso. Eu cá não senti falta de nenhuma costela…

[…] Descobri que ela é uma bela companhia.[…] demais, ela contou-me que nos foi ordenado trabalhar para ganhar o nosso pão, doravante. Ela vai ser-me útil. Eu comando os trabalhos.

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EVA

[…] Acho que sei honesta em todos os assuntos mas já começo a perceber que o núcleo e o centro da minha natureza é o amor do belo, a paixão do belo.

[…] Eu nunca tinha visto um homem, mas tinha aspecto disso e tenho a certeza que é mesmo isso. […] não tem ancas, afunila tal qual uma cenoura, quando se apeia, estica-se como uma grua, portanto julgo que seja um réptil conquanto também possa ser obra de arquitectura.

[…] Quando descobri que ele falava, tomei um novo interesse nele, porque eu adoro falar.

[…] Quem me dera fazê-lo entender que um coração que ama é riqueza, e riqueza suficiente, e que sem ele o intelecto é mísero.

(e Eva descobre como fazer fogo) O fogo é belo; qualquer dia vai fazer falta, pensei. (e com o fogo descobre o medo).

[…] Sim, acho que o amo só porque é meu e porque é macho.

Como interpretar esta obra no ano em que foi escrita – 1904? Sabemos que teve grande êxito, que proibida em vários estados americanos, escandalizados como a forma como o autor desrespeitava os cânones vigentes.

 Diz-nos Maria Teresa Horta, num artigo do Diário de Notícias de Maio de 2004: “Mark Twain fez surgir nele a figura de uma Eva demasiado subversiva para o início do século XX: incontrolável, instintivamente livre e sensual, possuída pela sede de conhecimento. Creio que o que fez perder a cabeça dos moralistas, da burguesia bem pensante da época, foi o facto de o escritor ter-se atrevido a tratá-la como alguém mais inteligente, mais divertido, mais perspicaz, mais criativo do que Adão, figura de que Twain ironiza a mentalidade limitada, o espírito tacanho e conservador, inquinado pelo machismo e pelos preconceitos. Cheio de ideias feitas, fugindo com afinco do ser imprevisível que tenta confrontá-lo com o novo, subvertendo, enquanto ele se restringe à queixa: Excertos dos Diários de Adão e Eva é de certo modo a explicação do começo do amor: espontâneo por parte de Eva, renitente por parte de Adão, atribuindo o escritor a ela o lado não só mais inventivo, mas igualmente mais caloroso. Porém, ao pô-la a admitir esse sentimento como sendo produto da sua natureza, fá-la cumprir um estereótipo, um destino feminino: «Eu amo-o com toda a força da minha natureza apaixonada e isto, creio, é próprio da minha juventude e do meu sexo».

Pois, a formação de Eva a partir da costela de Adão foi interpretada como superioridade masculina. E assim a mulher fica como sexo fraco, pois foi ela que caiu na tentação e, a partir daí,  seduziu o homem. É a razão de seu submetimento histórico, agora ideologicamente justificado. De facto, para a Igreja católica a mulher procria as crianças e o homem cria os objectos e as obras: São Paulo (Ephesiens, 5, 21-14) diz: “sejam submissos uns aos outros e crentes do Senhor. Que as mulheres o sejam aos seus maridos como ao Senhor: com efeito, o marido é o chefe de sua mulher, como Cristo é o chefe da Igreja”.

Eternamente maldita, tornada um ser inferior, sedutora do homem que a dominará, sendo o poder de dar a vida realizado entre dores.

Mas já passaram mais de 100 anos e muito mudou, apesar de muito ter de mudar. Mas continuamos a sorrir com as palavras de Mark Twain.

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