Que adianta ganhar o mundo inteiro, se perdemos os afectos?!
Há precisamente 100 anos (1914-2014), que começou na Europa a Primeira Grande Guerra Mundial. Milhões de vidas sacrificadas e assassinadas. Que as guerras matam. São antípodas dos partos. A Guerra de 14-18 foi o princípio do fim da Europa. E a verdade é que, 100 anos depois, o nosso País entra em 2014 com um OE que só o presidente Aníbal não vê que está mortalmente ferido de inconstitucionalidade. Por isso, não promove vida e vida em abundância, antes, exclui e mata. E, para cúmulo, ainda se atreve a apelar ao consenso político. Só pode ser um consenso em torno do grande Poder financeiro que, como se sabe, não pode ouvir falar em direitos humanos, nem em justiça social, nem em sororidade/fraternidade, nem em seres humanos de carne e osso, nem em povos, cada vez mais excedentários. À partida, o presidente Aníbal sabe que pode contar o Governo PP-PC, PauloPortas-PassosCoelho, mais uns quantos ministros e múltiplos secretários de estado. E com uma desavergonhada maioria parlamentar que há muito vendeu a alma ao Diabo/Poder financeiro. A que se junta uma esquerda parlamentar que protesta, protesta, mas não abre mão nem dos lugares onde se sentam, nem das mordomias. Todos num grande consenso de apoio e de protesto, sob a batuta do chefe de Estado que é, simultaneamente, comandante supremo das Forças Armadas, por sinal, também elas, demasiado domesticadas e corporativas.
A Primeira Grande Guerra Mundial de há 100 anos é hoje a Primeira Grande Guerra Mundial financeira. O Dinheiro, no lugar dos povos. As mercadorias, no lugar das pessoas de carne e osso. Nascemos cada vez menos em Portugal e na Europa. Cada dia, fecham mais empresas e somos cada vez menos a pisar o chão do País. Porque nascemos menos cada ano e porque os jovens saídos das universidades deixam os mais velhos entregues à solidão. Deveriam ficar, solidários com as gerações dos seus pais e avós. Teriam de começar tudo de novo, é verdade. Seria uma epopeia, nascida de raiz, digna de uns novos Lusíadas. Mas não estão para esse esforço criador. E desertam da sua mátria/pátria. Seduzidos pelo dinheiro com que lhes acenam de outros países da Europa e do resto do mundo. São como os jogadores de futebol dos milhões, cuja pátria é o Dinheiro!
Quando tudo se afunda e o deserto avança, galopante, sobre as aldeias e as cidades do interior, o presidente Aníbal, 100 anos depois da Primeira Grande Guerra Mundial, começa o ano de 2014 a apelar ao consenso político. Quer, a todo o custo, que o Governo PP-PC se eternize à frente do País, para o destruir por completo. Apela ao consenso, quando deveria apelar à rebelião política e à criatividade das novas gerações. Já nem os partidos políticos que ainda se dizem de esquerda – na verdade, são partidos que apenas querem ser Poder – sabem o que dizer/fazer. Uma coisa, os seus deputados sabem. Sabem que a manutenção deste status quo lhes traz vantagens pessoais e familiares. Enquanto houver consenso em torno do Poder financeiro, as vidas dos deputados, à direita e à esquerda, continuam asseguradas. Ao contrário das vidas das populações que vêem as suas próprias filhas, os seus próprios filhos desertar do País que tanto investiu na sua formação académica. Deixam tudo pelo dinheiro que aqui não auferem. Vão por lã, e acabam todas, todos, tosquiados. Porque sem afectos. Sem relações, pele com pele. Só mesmo relações virtuais. Por isso, estéreis. Já que as relações virtuais, por mais frequentes que sejam, nunca são geradoras de filhas, filhos. De bebés. As famílias virtuais são outras tantas bolas de sabão.
Somos, por isso, um País bolas de sabão. Sem alegria. Sem festa. Sem sol. Até a Natureza passa os dias e as noites a chorar. Lágrimas de chuva e de sangue. Tanto sofrimento só tem paralelo com o sofrimento de há 100 anos. Então, foi uma Guerra Mundial feita com armas e bombas despejadas por aviões. Hoje, as armas sobejam, porque a guerra é quase só financeira. Não corre sangue, a não ser nas estradas e auto-estradas da Europa e do mundo. Morre-se e não se nasce. Fazemos funerais, não celebramos natais a sério. Só os natais-faz-de-conta, dos meninos-jesus e dos pais-natais.
Entramos em 2014 com o presidente Aníbal a apelar ao consenso. Já ninguém faz caso do que do que ele diz, nem do que ele faz. Ele próprio não se toma a sério. O palácio de Belém é a sua prisão dourada. Um pesadelo. O Governo PP-PC que ele faz questão de manter em funções, é o coveiro do País. E as novas gerações, perante toda esta desgraça, em lugar de ficarem aqui, de pé, solidárias e criadoras, correm a procurar fora o que deveriam inventar/criar cá dentro. Porque para isso nascemos e viemos ao mundo. Para criarmos vida e vida de qualidade e em abundância. Este chão que nos deu à luz precisa das nossas mãos, dos nossos braços, dos nossos pés, das nossas capacidades, da nossa criatividade. Recusemos, pois, o consenso em torno do Poder financeiro, envolvido numa guerra mundial, bem pior que a de há 100 anos, e ousemos fazer das pedras, chão fecundo. Este chão que nos deu à luz, precisa de nós para poder frutificar e garantir vida a todas, todos. É tempo de ficar, não de desertar. É tempo de conceber e de dar à luz filhas, filhos. Só os afectos nos salvam, nos dão saúde, nos fazem extrair pão até das pedras, suculentos frutos, até do deserto, vida, até das aldeias do interior. Na Terra, temos vida. No Dinheiro, morte. Que adianta ganhar o mundo inteiro, se perdemos os afectos?!