Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 162 – por Manuela Degerine

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Hic fuit corpus beati Jacobi

É dia de feira em Padron, atravesso uma multidão densa, gente que compra, gente que se encontra, gente que ri e conversa, levo algum tempo a chegar – com a mochila – à igreja de Santiago, que hoje se encontra aberta… Poiso a carga. Sento-me diante do altar durante alguns instantes. Tento calar a Maria Papoula. Há magotes lá fora a circular e apenas oito devotos a rezar; a religião perdeu a centralidade. Este lugar mítico não pode – mesmo em dia de feira – competir com o fervor que observamos nos centros comerciais.

Despedi-me das ovelhas, do meu cão, da casas velhas, do lugar onde nasci, passo a lado do cemitério de Iria Flávia, no qual Camilo José Cela jaz, se voltar a dormir em Padron, quero fazer-lhe uma visita, a seguir ziguezagueio por Romaris, Rueiro, Anteportas, seus espigueiros, suas abóboras nos muros, suas couves – galegas – nas hortas, suas avós a conversar, suas ovelhas a pastar, seus rododendros cor de fogo, alcanço Esclavitude, subo, desço, passo junto a uma linha de comboio…

No ano passado encontrei aqui uma peregrina que regressava de Santiago e dormira no albergue de Teo, onde conversou com uma alemã e uma holandesa, as quais comigo haviam palmilhado bastantes quilómetros e portanto lhe falaram da portuguesa (ou francesa) que, com uma tendinite, continuava a percorrer, cada dia, uma etapa…  Mostraram-lhe uma fotografia, por isso ela exclama:

– Ah, já te conheço!

O Caminho de Santiago parece uma aldeia, não me importo de ir à toa, o sonho é ver Olveiroa, passo em Picaranha à beira da N-550, admiro o cruzeiro em Rua de Francos, subo bastante, desço um pouco, volto a subir, adeus ó terra, adeus linda serra, de lama e luar… Esta Maria Papoula é pegajosa. (E Santiago me livre de ver a lua no Caminho.) Já palmilhei vinte quilómetros mas vou no máximo das possibilidades: começo a sentir-me cansada. Conseguirei chegar hoje? Na vida raras certezas temos. E na caminhada muitas menos. Reconheço agora…

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