Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 163

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Ambiente galego

Imagem2No ano passado, não bastando a tendinite, jantara com dois espanhóis – muito simpáticos e interessantes – cuja conversa se prolongou até às onze da noite, portanto no dia seguinte a etapa de Padron a Santiago foi a mais difícil daquele difícil Caminho e, já dentro da cidade, descaí num banco, incapaz levantar os pés de chumbo; só a distinção fundamental entre o sem-abrigo e o andarilho me obrigou – meia hora mais tarde – a juntar forças para erguer o corpo e caminhar… Um milagre.

Sento-me agora no Caminho de Riotinto a poucos metros de uma rua com prédios pardos, porém aqui há o rio, plantas aquáticas, uma ponte azul, um espigueiro, campos verdes, esta casa de granito dourado… E um banco. Como a primeira caixa de massa enquanto medito que, pelo que tenho visto, é frequente na Galiza a imbricação do rural com o residencial, o urbano, o industrial, o periférico… A justaposição heteróclita contribui não raro para compor um ambiente particular: galego?

Vivo um instante de êxtase perante este molho de troncos de couve. Em vez de os lançar para o monte, quem os arrancou compôs uma escultura… Num mundo em que corpos, ideias, gestos parecem feitos em série, rompe de súbito esta realidade singular: a estética do trabalho bem feito. Porquanto hoje o minifúndio não governa as famílias, o molho foi decerto feito por alguém que trabalha na terra ao fim de semana e deste modo vai preservando os valores da sociedade rural. Que a deusa Deméter lhe proteja a cultura dos corvos, dos fungos, das lagartas, dos coelhos, de todas as boas e más razões que incitam outros a comprar nos supermercados e a perder o sentido – e o valor – do trabalho.

Mais adiante converso com um pescador alto, moreno, bonitão. Traz botas pela coxa e cesto de vime à cintura. Parece uma imagem publicitária numa revista de material para pesca desportiva, suas calças, botas, camisas, coletes e múltiplos acessórios… Regressa ao carro.

– A pesca foi boa?

– Não: apanhei uma miniatura e voltei a pô-la na água.

– Que peixes há aqui?

– Trutas.

Prossigo na direção do Agro dos Monteiros, o cume da Via Lusitana dentro da Galiza. Quereria esclarecer quem aqui vive e cultiva os campos, quem aqui tem casas e atividades de recreio, quais as idades, os itinerários, os sonhos, os desvios, os sucessos, os fracassos… Quem são afinal os galegos?

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